O mar e o cream cracker
Começou com um incômodo, um estranhamento. Apesar das teorias para explicar-lo, ele piorava a cada dia. Às vezes acordava como indisposição para o mundo, outras era uma preguiça até de pensar. Na última semana transformou-se em uma dorzinha de cabeça irritante, que acompanhava crises constantes de alergia. Então essa dor desceu pelo pescoço, fazendo arranhar a garganta com um nó, e, finalmente, desde ontem, se alojou no coração, como se fosse um bolo de farinha seca entupindo as artérias.
Enquanto fazem cabo de guerra com meus braços, eu me pergunto onde diabos é o meu lugar. Se vou, deixo saudades, se fico, falta atenção. Se luto, não sobra tempo nem ânimo pra nada, se desisto, perco tudo que ainda não construí. Ser o que eu sou incomoda, ser o que eu não sou não satisfaz. Aliás, satisfação é pra outra vida, ao que me contam. Eu que sou maluca de querer tudo!
Estou emocionalmente cansada, e piorando a cada dia. Sinto minha saúde gastando suas últimas ATPs para me manter longe da cama, e ninguém enxerga minhas necessidades além de mim mesma. Eu sei a doença e sei a cura, e não consigo evitar ficar doente, nem tenho vontade de me curar. Me curar é desistir. Desistir é não ter tudo. Se não tenho tudo, sou normal. Se sou normal, não sou eu. Se não sou eu, não satisfaço. Mas satisfazer quem, se sou eu a louca de querer tudo?!
Então são os outros que têm que desistir? Talvez. Mas consertar os outros não cabe a mim, nem curar quem não acha que está doente. Das minhas feridas, entendo eu. Das feridas dos outros, só sendo uma cadela pra ficar lambendo… Não ajuda, mas pelo menos alivia.
Eu sou uma cadela. É uma boa conclusão para o dia começar.
Mudando de assunto, mas continuando no mesmo, eu estou tão entalada de sentimentos em tantas línguas diferentes e tanto tempo sem escrever de verdade, que eu acho que a qualquer momento eu vou explodir em palavras desconexas e desembestar dias escrevendo só merda - está começando. Quem sabe nessa hora eu perceba toda a mediocridade reprimida em mim e a parte de querer tudo que envolve ser escritora vá por água abaixo…
Eu preciso desesperadamente de uma sessão descarrego. E nenhuma substância que altere meu estado, por favor, nem chocolate, senão eu vou enlouquecer de vez.
Back to the origins: “I need a little room to breath ’cause I’m one step closer to the edge and I’m about a break”