Era uma vez…
Eu cresci.
As recordações da infância têm um efeito mágico sobre a nossa inspiração: ela surge abundante e inesperada, numa torrente incontrolável que começa discreta e triste, com gosto de nostalgia que vai tomando ares de realidade.
Começou assim, rede e livro, sono de sesta. As imagens e os sentimentos de minha infância viriam por si sós, mas Isabel Allende sempre acaba ajudando, até nos nomes, Eva Luna. Lendo, deixei-me embalar pelo mundo de fantasias da meio índia, mergulhando no meu próprio passado, agarrada às suas referências e às visões além de minhas pálpebras já cerradas. Então despertei com o céu despintando o azul, o inverno trazendo prematuramente a noite. Ao abrir os olhos, encontro-me no passado. O mesmo lugar, os mesmos pensamentos, que, surpreendentemente, nunca se foram, a mesma vontade de perder-me no meu mundo e abandonar-me às idéias.
Finalmente percebi o que tanto mudou: por seis meses, desprendi-me completamente de minhas antigas referências. Suavemente, minhas raízes soltaram-se, deixando uma terra fofa e arejada no lugar. Então regresso e revejo as coisas que, na verdade, nunca deixei. A diferença é que agora tenho a real sensação do que difere uma criança de um adulto: antes, eu sonhava sonhos. Hoje, eu sonho coisas, e todas elas vãs. Minha infância triste deu lugar a uma maturidade ousada e feliz, mas algo se perdeu no meio do caminho. Libertei-me de mim, mas prendi-me ao mundo. E as tardes sonolentas de sonhos ficaram num passado distante…
Meus dias já não são tão inspirados, muito menos inspiradores. Mas minha vida é metade sorte, metade esforço. Quem sabe não envelheço mais rápido e começo a buscar os vestígios de mim que ficaram perdidos pelo canto dessas casas, no meio dessas plantas, doados aos animais? Deixei uma vida de contemplação por uma vida de (f)utilidades. Valeu a pena? Vale. Todos os dias.
Sim, eu cresci. Sou uma adulta. Não acho que isso faça de mim mais sábia. Nem menos. No entanto, agora sou concreta, e as brumas dos sonhos quase se restringem às noites, e àquelas que não se sucedem a dias cansados. Nunca coube a mim dizer o que é positivo e negativo. Sou mais feliz. Sou mais realizada. Mas sinto que perdi algo de precioso, algo que me alimentava. Ainda que tudo esteja melhor, sinto saudade dos dias de bicho-do-mato, plantas e animais, livros e silêncio. Minha infância foi mágica.
Sei que posso permitir-me a magia de novo, mas eu não tenho certeza do preço. Tenho o pressentimento de que não a deixei completamente – ela vai voltar, como todas as coisas que nunca abandonamos. Não sei quem me reserva mais surpresas… eu ou o mundo.