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Tô voltando

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu to voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu to voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar…Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu to voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor
Que eu to voltando
Pega uma praia, aproveita, ta calor, vai pegando uma cor
Que eu to voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar que eu só quero mesmo é
Despentear
Quero te agarrar… pode se preparar porque eu to voltando

Põe pra tocar na vitrola aquele som, estréia uma camisola
Eu to voltando
Dá folga pra empregada, manda a criançada pra casa da avó
Que eu to voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar… Quero lá.. lá.. lá..
ia…..porque eu to voltando!

 

Pode se preparar, porqu’eu toh voltando… Lalalalaía lalalalaiá… porqu’eu toh voltando…

Hoje estou assim, cantando. Não, não é que eu tenha motivos para estar feliz, pelo contrário, foi um desses dias q dá vontade de apagar do calendário, da lembrança, de tudo. Mas, então, nos 45 do segundo tempo deste dia, no meio de um choro pra lá de convulsivo, eu cheguei à boa, mt boa, e velha, mt velha, conclusão de que eu sou a criatura mais autofágica que eu conheço: no final das contas não preciso de ninguém além de mim mesma pra me fazer feliz. O resto é os widgets e os plugins da vida. Eu sou meu hardware e meu sistema operacional, perfeitamente funcional sozinha. Que bom que eu tenho um antivirus muito eficiente.

Assim, ouvindo jazz e esperando os pênaltis, eu me preparo para essas quartas de final. Quero chegar pelo menos na final. Na verdade, eu sei que esse campeonato já é meu. E porque, pela primeira vez em minha vida, eu estou usando metáfora de futebol? Esperem só para ver meu software novo. Tem gente que vai se surpreender.

… lalalalaía quero lalalalaía porqu’eu toh voltando…. humhumhumhum…humhumhumhumhum… porqu’eu toh voltando…

O futuro do presente

Essa semana bateu a realidade de que está acabando. Em três semanas eu estarei em casa, fim do sonho dourado. E começo de… quem sabe? Não sei o q me espera nem o que esperam. Só sei que vai ser tudo diferente…

E no meio de tantas despedidas, lá vai a conversa clássica: do que eu vou sentir falta?

- Do café francês. Nem o italiano, nem o brasileiro. Os franceses sabem fazer café, cappuccino, chocolate quente e todas as suas variações como ninguém. Custa caro, mas em qualquer esquina, se pode beber o melhor café de sua vida.

- Dos pães e doces franceses, incluindo o chocolate. Vale o mesmo que escrevi aí em cima. Qualquer padaria te faz ter a maior experiência gastronomica de sua vida, só com uma baguette. O chocolate mais barato, a marca de supermercado, é incomparavelmente melhor que qualquer Nestlé. Não importa q a gente tenha o melhor cacao, são os europeus q sabem o q fazer com ele.

- Da residência universitária. A melhor experiência cultural e linguística de minha vida. Nada além disso me daria a incrível (e comum por aqui) capacidade de falar 3 ou 4 línguas ao mesmo tempo. Nada me daria a oportunidade de ouvir um alarme de incêndio tocar 3 vezes numa noite, e ver franceses seguirem o plano de incêndio nessas 3 vezes. Em nenhum outro lugar eu ouviria chinês e lutaria por espaço entre as imensas panelas chinesas enquanto cozinho comida mexicana, ao lado de espanhóis fazendo tortillas e escutando pagodão (viva Flávio!). Nem cagaria tensa enquanto um grupo de latinos conversa na frente do banheiro. Nem ouviria bebedeiras e choradeiras e quebradeiras em todas as línguas - vocês precisam ver chinesas bêbadas, é uma das cenas mais engraçadas do mundo. Finalmente, não conheceria o tédio francês de perto. Não convivi com uma família, mas com vários jovens franceses. Ô povinho chato… Ainda bem q tah cheio de africano e árabe aqui pra animar esse lugar.

- De ter segurança quase absoluta. E deixar meu laptop largado na biblioteca com meu email aberto enqnt vou almoçar, e caminhar às 3 da matina, e perder um celular e reavê-lo 20 dias depois, intacto, e com todos os créditos. Tudo bem que posso ter isso em mts países, mas a educação francesa também faz diferença nessas horas.

- De chegar em qualquer lugar em poucos minutos, e de n precisar pegar buzu para ir a quase lugar nenhum. E de saber exatamente q hs o buzu passa. E de poder não pagar qnd n posso/quero.

- De viver sem suar. Pra suar aqui é necessário um grande esforço, mesmo. Eu já nem me lembrava dessa sensação. Esse clima de garoa e frio é uma merda, mas eu adoro, tenho q confessar.

- De chegar a qualquer cidade turística próxima em 1 hr ou menos. E de ver cidades de brinquedo o tempo inteiro.

- De estudar só o que eu gosto, quanto eu gosto e quase como eu gosto. E de ter uma aula de cada matéria por semana.

- De ver sua felicidade quando ele come kebab.

- De estar super perto de um monte de lugares completamente diferentes para viajar.

- De ter minha casinha (ou quartinho), com minha vidinha, cozinhar, limpar, arrumar, tudo meu, assim. De viver fora da casa dos meus pais, com dinheiro e sem precisar trabalhar.

- De ter 4 estações. Se o inverno é lindo de morrer, a primavera é linda de viver.

- De um monte de outras coisas que não são necessariamente francesas, mas que eu vi/vivi aqui. Dos dias mais felizes de minha vida.

Eu vou morrer de saudades dessa vida. É na França, mas podia ser em outros lugares. Mas agora conheço a cultura e a educação francesa, realizei vários sonhos, sonhos até que eu não tinha. A melhor coisa q fiz na minha vida, graças a meus pais, foi este intercâmbio. Volto outra pessoa, melhor em todos os termos (creio eu), falando fluentemente 3 idiomas (viva a residência universitária!), e pronta para uma vida nova em folha, que é diferente da que eu tinha e da que eu tenho agora. Quem sabe esse é o meu momento de testar vidas antes que eu escolha o caminho q quero seguir…

Essa tempestade anda meio garoa… e meio nostálgica…

São dois pra lá, dois pra cá

Das três pessoas que realmente sentem a minha ausência aqui, duas vão embora amanhã. Começa a temporada de despedidas.

Sinto uma tristeza seca, vazia, dessas de perder o que nunca tivemos, de livro que não queremos que acabe. Não, ela não era lá muito simpática, perfeitamente odiável, mas, talvez por isso, para contrariar, simplesmente, eu vou tanto com a cara dela. Talvez por uma admiração deslocada, talvez até identificação, de ser igualmente uma mulher forte e que não faz questão de ser compreendida. Ela não faz idéia de como me sinto, ninguém faz.

Mas essa tristeza, na verdade, já tem algum tempo, me persegue aparentemente sem motivo, eu leio-a nas entrelinhas do meu dia-a-dia. Numa discussão, no silêncio, em verdades descobertas, em uma risada forçada, no sono que nunca chega. Estranhamente para mim tudo encaixa perfeitamente, tudo é esperado, tudo faz parte. Quem não faz parte sou eu, alienígena em todos os lugares. Não é só porque encontrei um sentido para as coisas que elas devem mudar. Eu devia saber disso.

Talvez todos estemos representando. Talvez todos busquem o seu lugar sem jamais encontrá-lo. Ou talvez saibam que essa busca é infértil e já desistiram dela há muito. E eu continuo em minha pele, passos pré-determinados, sabendo onde ir, mas sem jamais querer chegar.

Quem sabe tudo se resolveria com um pouco de compreensão e menos orgulho? É que chegam essas horas em que não me escutam mais do que eu falo. Melhor calar de vez.

Só há duas pessoas nesse mundo que podem desfazer esse nó. Eu sempre sei a resposta antes de fazer a pergunta.

Ás de copas, rainha de espadas

Não sei o que quero dizer, mas sei que quero escrever alguma coisa, simplesmente para resistir à tentação que é deixar de lado nossas velhas manias quando buscamos uma vida nova.

Tudo pode começar aqui, neste quarto. Então você está em uma cama, sentada diante de uma janela que dá para um dia frio e acinzentado - e você pergunta-se porque diabos ela está aberta, se você está sentindo frio. Apesar da manhã produtiva, você não fez nada essa tarde, simplesmente porque aqui, quando o sono prende-te à cama, é impossível encontrar justificativas suficientes para deixá-lo. Você ainda permanece na cama, ainda que tenha despertado há muito, navegando à toa na internet, emails para responder, uma prova para estudar, e uma festa acontecendo. E você está na cama. Ele, sentado, eternamente estudando. Estuda como se fosse algo tão natural quanto comer, dormir, ou lavar roupas - o que é realmente normal para ele. E, quando se cansa, apenas muda de atividade, para umas horas depois voltar para sua religião. Estranhamente, esta necessidade confunde-se com prazer, o desafio e a competição alimentam-no. E você, sentada na cama, observa-o como quem contempla uma espécie completamente nova. 

E então você está numa cidade que tem tantos habitantes quantos Jequié, e que está encrustada no meio do nada, onde somente os ventos e as chuvas vão, castigada pelos maus humores do Canal da Mancha. Você descobre que o céu que protege os franceses reflete o seu humor: frio e úmido, enxotando os estrangeiros para que não sujemos seu território sagrado. Snape devia ser francês. Então você estuda em um sistema no qual a lógica é tão pura que supera o próprio conteúdo, e a igualdade, fraternidade e a liberdade ficam escondidos entre as páginas dos livros. Mas você pode andar pelas ruas com seu notebook na mão, ou voltar de casa às 3 da manhã, de salto, com celular, dinheiro, a carteira na mão, se quiser. Você pode deixar suas coisas em qualquer ponto da cidade (excetuando-se as bicicletas, porque essas, sim, estão muito abaixo da demanda), e vai encontrá-las exatamente no mesmo lugar, e por isso as pessoas deixam os carros abertos com a chave na ignição. E, assim, nesse sistema sem falhas, você descobre que a falha é você, porque só você pode enganar o sistema: fazer as frutas pesarem menos, o ônibus e o metrô saírem de graça, atrasar um mês na biblioteca sem que nada aconteça, ter queijo em cima da bolonhesa, sendo que seu queijo acabou há uma semana. Os outros? Os franceses, criados para obedecer. Os estrangeiros não são franceses. 

Então você atravessa um oceano para encontrar alguém que estava no mesmo continente que você. E você vive dias cor-de-rosa, prevendo, em cada um deles, que adiante as coisas serão feitas carvão: ou o pó escuro que cobre tudo, ou a pedra que oferece os mais belos desenhos, ou os restos queimados de algo que já viveu. Então você encontra esta única e inacreditável oportunidade de mudar de/a vida, de se mudar e de mudar-se. E você mergulha profundo, porque sabe que a superfície é tão superficial quanto sua vida anterior. Mas, no fundo, nada é diferente, porque você não deixou de ser você mesma. E você vai para o Pacífico, que engana no nome, mas avisa que não é tão tranquilo quanto o Atlântico. E você, que não mergulhou em muitos mares, mas nasceu com nadadeiras, finge que tudo parece muito fácil nesse seu desconcerto de quem acha que está fazendo algo errado porque acha tudo fácil demais. Submarina.

E então você finalmente descobre onde você está, para onde você vai, o que você quer e o que você não quer. E a vida transforma-se num jogo de pôquer, onde se conhecem as regras, as cartas, e, agora, tudo depende da sorte - e das cartas que os outros têm na mão. Tudo vira uma aposta, e na mesa está seu dinheiro, sua cabeça e seu coração (ou ele é a carta que está na manga?). E, nesta rodada, você teve a sorte de ter um royal straight flush de copas, mas quem tem sorte no amor tem azar no jogo. E tudo que você tem é seu raciocínio agudo, sua paz de espírito, e seus amigos à prova de distância. E nessa perigrinação em busca de algo que você nunca perdeu, você tem a revigorante sensação de que está parada no tempo enquanto há uma vida inteira que continua no lugar que você nunca deixou.

Então, você se sente muito segura, porque não perdeu o jogo com as palavras, mesmo mergulhando em outras línguas; o português é mãe. E você sabe que pode ir longe, e que ele vai levar-te ainda mais longe do que você sonhou ir sozinha. Você sabe também que quanto mais longo o caminho de ida, maior e mais difícil é a volta, ainda que a estrada seja conhecida. E você adota o risco de partir. E tudo isso, porquê? Porque a insatisfação é menor quando estamos nos movimentando. Seu maior inimigo não é o medo, nem a saudade, é o tédio. E, finalmente, você está feliz, como nunca, mesmo sabendo que, por pessimismo, por lógica, ou por destino, essa felicidade vai acabar. Mas você tem que tentar, ainda que seja em vão. Porque você ainda não teve o suficiente. Porque a curiosidade é maior. Porque você nunca encontrou o seu lugar. Porque você escreve.

Conclusão, com ajuda de Isabel Allende: escritoras/es são seres eternamente insatisfeitos, deslocados e curiosos. Eu amo ser esse monstro.

Diário de Bordo. 5o. mês, 3o. dia: Barba, cabelo e bigode

Hoje tive muita vontade de escrever, depois de ler o e-mail de Muni. Como sempre, mergulho completamente na vida alheia e, às vezes, acabo esquecendo dos detalhes que fazem de mim eu mesma. Escrever, por exemplo. No entanto, agora que paro para fazer isso, por falta de prática ou desinteresse, as palavras não vêm. Talvez eu deva começar com o usual relatório de coisas que aconteceram para ver se elas fluem.

O interessante dessa semana foi uma festa aqui na residência. A melhor festa do semestre, sem sombra de dúvidas. Tudo começou assim: todo ano, os alunos do último ano do IEP fazem uma mega festa, chamada Le Gala (sim, é uma festa de gala). Cada ano, essa festa tem uma temática diferente. Esse ano, escolheram um baile de máscaras. Ocorre que cobraram 17/20 euros por cabeça. Eu estava louca para ir para um baile de máscaras desde que fui para Veneza, mas… ponto 1: festas francesas, por serem cheias de franceses, são chatas. Eles se divertem da seguinte forma: chegam, bebem, acham que estão dançando, continuam bebendo, e seguem bebendo até que não possam mais deglutir álcool. Descobri que esse senso de “hora de parar e curtir a festa” é algo latino-americano. Não fazemos festa para beber nem bebemos para fazer festa, não precisamos de desculpas para fazer festas. Mas os europeus são reprimidos demais, e, enfim, já viram. Ponto 2: tendo em vista que nunca paguei mais de 7 euros para ir numa festa aqui, é o cúmulo do absurdo cobrarem essa quantia, e ainda ter que arrumar roupa de gala pra ir. Resultado: desisti e fiquei na minha.

Ocorre que Flávio (como sempre, ele) ouviu dizer que alguns franceses do IEP também achavam loucura pagar aquilo, e eles mesmos reconheciam que a festa deles é um saco. Assim sendo, ele teve a grande idéia de fazer a Anti-Gala: mesmo dia, mesma hora, à fantasia. Mas, dessa vez, nossa festa, aqui em Patton, foi de graça, e a regra era que as meninas se vestiam de gangster e os meninos, de puta. Resultado: a festa bombou e muita gente, mesmo sem beber “soltou a franga”. Sim. Teve menino que raspou a perna, comprou peruca, falou fino a noite inteira, e Rennes inteira parou para ver. A publicação de fotos foi vetada, mas eu vou tentar burlar a censura.

A propósito, eu virei um italiano muito gatinho, David virou uma colegial super kawaiiiiiiiiiii, Flávio era uma prostituta da Ladeira da Montanha, mais baixo astral impossível, e os espanhóis fizeram uma maquiagem melhor do que a minha de sempre… Muito mais mulheres do que eu!!!

De resto, redescobrimos as maravilhas e o vício de jogar Banco Imobiliário, assim como de descansar depois de fazer tanto trabalho - para voltar a fazer outros. Essa semana terminam as aulas, e depois só prova atrás de prova, super cabrón. Vou ter que rebolar na boquinha da garrafa pra dar conta de todas as provas ORAIS, e ainda mais da única escrita. Sim, o esquema aqui é tão “perro” que a gente até prefere prova oral do que escrita, pq na escrita avaliam a ortografia também. Ou seja, é como se fosse uma prova da matéria e de francês ao mesmo tempo. Pelo menos já acabaram as aulas de francês, de Conference de Méthode, e todas as suas provas e apresentações também. Agora somos eu e as 5 matadoras. Vamos lá.

Bom, como eu falei com minha família agora e matei falando um pouco da vontade de escrever, vou ficar por aqui. Também quase todas as minhas roupas estão sujas e tenho um último trabalho para fazer, o que significa que amanhã será um dia cheio. E, entre notícias sobre a epidemia mexicana, filmes e trabalhos, eu sigo minha semana… A próxima sexta também vai ser feriado aqui. Pelo menos isso! 

Isso é tudo, pessoal! Até a próxima: e prometo para mim mesma que vou escrever mais…