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Encontros e despedidas

Em meio a tanta doação, o que me sobra?

Perguntaram-me o porquê das senhas. Perguntaram-me o porquê ficar no meu quarto. O porquê de não fazer amigos novos, e o porquê de escrever sozinha. Porquê aquela vaca na parede é tão importante, e o anjinho pendurado também. O que faz de uma casa, uma casa, e de um lar, um lar. E porque mesmo num lar eu não estou em casa. Ou, tendo uma casa, não construí um lar.

Sim, o sacrifício, a doação sem reservas são maravilhosos. E adoro doar-me intensamente, martirizando-me pelo prazer alheio, fui feita e marcada católica. Mas, tão mergulhada na vida alheia, já torna-se difícil respirar. E vou perdendo meu brilho, que depende de minha própria combustão, vou apodrecendo em mim mesma, no vácuo que crio em torno de mim. A falta de ar sempre traz essa sensação enebriante de tontura. Mas, em poucos instantes, torna-se doença, agonia, desespero. Então acabo destruindo tudo à minha volta, buscando novamente o ar perdido. Antes que me afogue em mim mesma e no outro.

O que isso tem a ver com as senhas, com os lares, com os quartos, com os amigos? Hoje eu acordei serena e decidida a delimitar meu espaço, como sempre fiz antes. Amo a solidão que imponho a mim mesma, necessito de muito espaço para respirar. Ofereço meu blog a quem seja, mas necessito, dentro dele, o meu espaço. Ofereço o meu tempo a quem amo, mas esse tempo também há de servir-me. Ofereço meu amor, inteiramente, mas no limite do meu amor-próprio.

Como antes, redescobri que preciso de um altar em meu lar. Não para adorar a deuses, mas para ter um espaço sagrado para homenagear a mim mesma. Uma escrivaninha, uma estante de livros, um armário bagunçado, uma cama desforrada. Um lugar só meu, um templo para mim. Onde estarei só, onde serei eu mesma. 

Por isso, o reencontro com meu quarto foi emocionante, refazer a cama do nada, abrir a janela gigantesca e deixar a luz entrar. Sim, aqui eu construí meu próprio lar, meu espaço, meu templo. E agora sei que posso levar meu lar aonde quer que eu vá - e queira levá-lo. Ainda necessito reorganizar tudo, mas as coisas pelo chão, a poeira que invadiu tudo, a escrivaninha tomada por uma infinidade de papéis, tudo isso é meu. Sou eu. Sim, eu estou reencontrando-me, aos poucos. Reencontrar meu lar é reencontrar-me, voltar para onde eu estava. E eu estou feliz.

Três meses e meio, e tenho a sensação de que começo a viver o processo inverso. Quando cheguei, tive trabalho para adaptar-me, para construir meu lar, para encontrar-me neste fim de mundo. Agora percebo que necessito começar a desapegar-me das coisas que construí aqui e voltar somente com o essencial. E saudade, só dos momentos. Não posso levar nenhuma bagagem extra. Entre tantas idas e vindas, espero que eu, inteira, possa caber em meu corpo, e que não precise de nada mais para viver.

Sim, já está acontecendo.

 

Encontros e Despedidas - Milton Nascimento e Fernando Brant

 

Mande notícias do mundo de lá
diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
quando quero

Todos os dias é um vai e vem
a vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar 
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
são só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida…

Protegido: ‘The world is not enough…’

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Diário de Bordo. Férias de Primavera: Quem tem boca vai a Roma!

Promessa feita, promessa cumprida. Disse que ia atualizar o blog e que ia contar como foi minha viagem, então vamos matar os coelhos. O porém é que, como sempre, tenho mais coisas para contar do que tempo, e, assim sendo, vou cortar tudo pela metade e vcs vão ter que me perguntar por email (eu soh respondo orkut uma vez no mês e olhe lá!).

Roma. Já dormimos em Paris  para estar às 08h00 no aeroporto, que é lá onde Judas perdeu as botas. Fui com Lilyan, uma chilena que vive aqui em Patton e estuda no IEP também. Quando chegamos em Roma e vimos Lu, minha sensação foi de ter voltado para casa. É impressionante como bastar ver uma pessoa querida, que ela se transforma no nosso próprio lar quando estamos longe do original. Aliás, depois dessa viagem, posso dizer que às vezes basta ser do mesmo país. Enquanto estava com Lu, estava tudo maravilhoso, mesmo porque ela foi uma mãe e nos levou em TODOS os lugares - é sério, risquei todas as atrações do mapa! - e ainda por cima nos deu casa e comida (ainda não tínhamos que lavar roupa). O problema foi quando estava sozinha. Sim, sozinha porque Lily, apesar de estar no seio do catolicismo e ser católica ela mesma, não esteve muito disposta a compartilhar. Quando dava na telha, ela seguia o caminho sozinha e me largava procurando ela feito besta. Paciência. Por isso, quando entrei nos museus do Vaticano e na Capela Sistina, assim, sozinha, e sem câmera (a bateria descarregou, e, sim, eu sou uma anta), diante das coisas mais lindas que o ser humano já fez, eu cheguei à nobre conclusão de que não importa quanta beleza ou conhecimento exista no mundo, nada disso se concretiza se não compartilhamos. Enviei milhares de SMSs deprimidos para David, que me respondeu, me animando um pouquinho. De qualquer forma, posso dizer que a Capela Sistina só é bonita pelas pinturas, porque no final das contas é um galpão com paredes cobertas delas. Sim, as pinturas são impressionantes, a propósito.

Reflexões da viagem: só os piores capitalistas podem transformar seu maior e mais sagrado templo na maior mercadoria da Itália. Roma é impressionante, belíssima e muito viva. Pau a pau com Paris - e a minha amada capital francesa se salva nessa disputa porque os parisienses podem até ter fama de chato, mas sempre foram uns amores quando eu andei por aquelas bandas! Já dos italianos, estou longe de dizer o mesmo!

Ah, comi pizza deliciosa em uma autêntica cantina italiana, e voltei no tempo para lembrar da história do Império Romano. Pqp, era poder demais para um pedacinho só de terra… Império Romano, Vaticano, e agora a Itália está em franca decadência… Bom, tudo que sobe, desce, não é mesmo?

Florência. Umas horas em trem, e chegamos na capital mundial da arte renascentista. Ficamos num ap onde vive quase uma dezena de estudantes americanos, todos estudando algo relacionado a arte. Quase todos abestalhados, como americanos de sessão da tarde. Mas divertidos e gentis, e dormimos no sofá deles por uma noite, então tá tudo certo. A cidade é muito bonita, um amontoado de ruelas sujas, mas com um ar boêmio e muito italiano - mais uma razão para estarem sujas - e construções magníficas. Sério, tem prédios que o ideal era sentar e admirar por horas, só vendo a arquitetura. Sem falar nas igrejas e em toda a arte que o lugar transpira. Só fiquei um dia, não conheci tantas coisas. Não considero que é melhor que Roma porque poderia estar melhor acompanhada - que pena que Lu não pôde ir com a gente! - e as andanças pela cidade e a falta de paciência com minha companheira estavam consumindo minhas energias demais. Vide fotos, que vou publicar assim que tiver tempo!

Pisa. Eu sempre achei um pouco estúpida a idéia de ir para uma cidade somente para ver um defeito de construção. Mas Lily estava em sua empreitada de fazer o máximo de fotos de Facebook, e acabei topando ir com ela, porque o espírito de equipe durou mais que a presença de espírito. Umas horas lá, correndo para chegar, ver a torre e sair, e a menina acha de desaparecer de novo!!! NO MANCHES (perdão, mas eu vou voltar cheia de gírias mexicanas)!!! Eu já estava de saco cheio, mas se já estava na chuva, era mesmo pra me molhar. Li sobre a torre e tirei fotos analíticas do tamanho do desnível, que é mesmo bruto. Vide fotos, mais uma vez. Mas, sinceramente? A cidade é feia e não tem mais nada a oferecer: se for à Itália, risque do mapa e dedique mais tempo a Florência! Mas eu tenho as clássicas fotos, e posso dizer que conheci. Pelo menos saiu quase o mesmo preço, apesar de para comer ter sido tratada feito cachorro por italianos - e isso ajudava a acabar com meu humor já no limite.

Turim. Eu já estava há quase dois dias sem celular, e tinha que encontrar David. Corri, paguei mais caro, cheguei a tempo de buscar ele na estação. E mais do que valeu a pena: tirei 10kg de peso da alma, e mais alguns das costas, porque ele me ajudou a carregar a mochila. Mais uma vez, foi como voltar pra casa, o que foi mt bem vindo porque Lily e os italianos estavam me fazendo sentir falta da França, ainda mais do Brasil! Assim que deu meia-noite, abri meus presentes, todos  maravilhosos e inesquecíveis. E chorei. E acordei, e fomos para o centro histórico, e chorei, porque estava sentindo falta de casa, longe de minha família e meus amigos. E porque estava de saco cheio do mundo. E porque era o pior aniversário de minha vida. E por mais milhares de motivos que nem eu mesma sei, mas eu chorei pracarai. Briguei com David e com o mundo, depois fiquei de boa, depois briguei de novo, e depois de milhares de crises, tive um jantar perfeito e uma noite quase toda tranquila. O fato é que ouvir a voz de minha família e meus amigos foi água caindo do céu no ápice da seca. Eu chorei tantas vezes de tristeza e alegria, que decidi ficar sem lente, e, como quebrei meu óculos, fiquei sem enxergar mesmo.

A cidade é bonita, mas nada comparado com nenhuma das outras cidades que eu vi. É uma cidade normal, com um centro histórico bonito. E como eu estava muito ocupada com todas as minhas depressões, não visitei muito os lugares, apesar de ter andado por todos os cantos daquele bairro. Os italianos têm horários estranhos, a propósito. E o casal que nos hospedou em Couch Surfing é um amor!!!

Veneza. A cidade mais bonita que eu já vi. Se você tiver tempo, como eu tive, pode deitar na beira do canal e tomar sol, dormir um pouco, se divertir com as lindas e caras máscaras da cidade, admirar o interminável fluxo de turistas. Veneza é uma cidade para admirar, para curtir, e se você quiser fazer turismo de turista, vai perder muito. Se perder nas ruelas é o melhor de tudo, o lugar é um grande labirinto. Mas sempre te rende vistas maravilhosas e ótimas fotos (em breve, em breve). Sim, fede em algumas partes, sim, é suuuuuuuuuuper suja. De noite, vira um lixão. E, em geral, os italianos vão te tratar muito mal. Não adianta aprender buongiorno, grazie, prego, ou o que seja: eles não vão falar com você, porque você não passa de fonte de renda para eles, e não vai deixar de conhecer essa cidade maravilhosa pela falta de educação deles. Fiquei em um camping absurdamente longe da cidade, impossível sair em horário que não seja comercial pela falta de transporte público e privado, o que me causou problemas pq perdi o trem para Milão porque o taxi atrasou e tive que desembolsar uns bons euros por isso, mas o lugar é legal para descansar. Curti muito Veneza, e o melhor de tudo foi ver um concerto numa das igrejas perto do canal grande. As Quatro Estações de Vivaldi era o prato principal, lindo de morrer. E Veneza à noite é uma beleza à parte - as ruas estão mais vazias, e caminhar por essas ruelas ganha uma nova luz sob a lua cheia. Imperdível.

Milão. Já estávamos cansados e loucos para voltar para casa, mas tínhamos que ver a Praça Duomo em Milão antes de voltar. Dito e feito. A cidade não tem nada demais, apesar de ter essa praça maravilhosa. Vá, curta a praça, leve dinheiro para tomar um sorvete, e desista de conhecer igrejas na semana santa. Pelo menos, eu tenho as fotos para lembrar, porque logo depois, avião, e quase casa…

Paris. Sim, voltei aí antes de pegar o trem para minha amada Rennes. Só queria visitar Sacre Coeur, o que é meio estúpido no domingo de Páscoa. Mas fui. A vista da cidade é de tirar o fôlego, mas tinha tanto turista que isso tirou um pouco da graça do melhor cenário de Amelie Poulain. Ainda volto naquela cidade por mais uns 3 dias…

Balanço geral? Foi a primeira vez desde que cheguei que ouvi David encher a boca para dizer que amava a França e que tinha saudades de Rennes. E eu tive que concordar completamente com ele. De ódio à França ao amor e identificação quase totais, só a Itália poderia nos levar. Só um lugar tão bonito quanto mal cuidado, e um povo tão vivo quanto grosso poderia causar as impressões mais contraditórias. Voltamos muito felizes ao nosso lar doce lar, apesar de que eu tenho que concordar também que a Itália é imperdível. Mas escolha uma boa companhia. E leve estoque extra de paciência para que italianos te ignorem, atirem as coisas para você ao invés de te darem na mão, tentem te atropelar em cada esquina, se sintam os reis do mundo… Se os finlandeses vivessem na Itália, e vice-versa, a troca seria muito justa! =D

É isso. Fico por aqui porque enquanto eu viajava, o tempo corria e agora tenho que fazer tudo que deixei pendente. Ah, já consertei meus óculos em uma ótica de franceses gentis e sorridentes (como eu senti falta disso!), já estou feliz da vida de novo, e ainda mais que antes, porque agora valoro muito mais do que eu tenho, e AMEI todas as mensagens de orkut, email e telefone que mandaram em meu aniversário!!! Eu estou morrendo de saudade de vocês!!!

Muitos beijos e queijos e até a próxima!!!

Protegido: Linda, mas fede.

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