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Além-mar e além-céu

Faz séculos que eu não escrevo. Não sei por que, mas me parece inacreditável que a razão seja falta de tempo - é a mais pura verdade. Todos esses dias eu tenho dormido pouco para dar conta de fazer tudo, e de caber todas as coisas importantes em minha vida. Não é que o blog vá ficar jogado às traças. Mas é que falar de mim não é tão desejável ou necessário enquanto nem sei o que falar, nem para quem. Não tenho conversado muito comigo mesma, mas nos poucos momentos em que isso acontece, chegamos à conclusão de que as apostas já foram feitas, a estratégia, determinada, e que só falta rolar os dados - e eu não vejo a hora de fazer isso! A cada vez que me encontro, tenho a certeza de que estou jogando o jogo certo, com a estratégia certa, e a sorte está do meu lado, porque nunca fui tão feliz.

Mas o mais importante é que esse é um momento de retribuir ao outros o carinho e o amor que me deram. Por isso tenho tão pouco tempo para o blog, para mim, porque minha felicidade é exponencial quando posso dividi-la. E estou trabalhando o dobro para mostrar o quanto valeu a pena cada um deles, de alguma forma, ter investido em mim o amor, o tempo, a paciência, ou o que seja.

Mas sempre preciso voltar, porque sou um eterno refazer-me. Ainda mais quando recebo uns puxões de orelha. Ninguém nunca me havia pegado pelos ombros, levantado minha cabeça e me provocado daquela forma. Sim, eu posso ser muito mais mulher do que sou agora. Aliás, alguma hora eu ia ter que deixar de ser pixote. É um ótimo momento para começar, porque agora eu sei que se eu cair, não só vai ter quem me ajude a levantar, como quem me inspire para que eu esteja no topo de novo. Quanto maior a altura, pior a queda, é verdade. Mas ele me tem ensinado a voar. Não por ele, nem por ninguém além de mim mesma, eu quero estar lá em cima, nem que seja só para provar esse ar mais rarefeito. Nem que seja só pra ter uma bela vista e depois descer (ou cair) de novo. Sim, nós vamos comer o mundo!

Entre tanta inspiração e beleza que a vida tem trazido, talvez eu tenha me perdido um pouco, o que não é ruim. Por isso, alguns de vocês ainda não sabem, mas para facilitar a comunicação geral, eu preciso contar algumas novidades, ainda que seja em forma de relatório.

Primeiro é que quando eu estava em Estocolmo, olhando meus emails numa loja de conveniência, recebi a melhor notícia do ano (e que ano abençoado!): MAI ESTÁ GRÁVIDA DE NOVO! Ainda está com dois meses, quase três, e certamente ainda não sabemos o sexo do bebê, mas assim que eu souber, eu espalho a boa nova…

Segundo é que ontem eu paguei um “chingo” (desculpem, mas vou voltar praí cheia de expressões do “barrio” mexicano… paciência!), mas cortei e pintei meu cabelo! Resultado: agora eu vou querer cortar o meu cabelo na França sempre!!!! Realizei meu sonho de ter um corte europeu, e não só isso, estou numa nova categoria de vermelhos. Bye bye, vermelhos intensos, olá acobreados. Próximo passo? Esperar para fazer isso no México de novo e comparar os estilos… =D

Terceiro é que vou sumir de novo. É que amanhã à noite começo minha viagem para a Itália e só volto no dia 12 de noite. Isso significa várias coisas: 1) EU VOU VER LU!!!!; 2) Eu vou ver pessoalmente as imagens dos meus livros de história!!!; 3) EU VOU VER VENEZAAAAAAAAAAAA!!!; 4) Eu não estarei tão facilmente comunicável no dia do meu aniversário; 5) Eu vou gastar um chingo de dinheiro de novo, então não esperem lembrancinhas italianas; 6) Eu vou contar tudo e postar as fotos assim q eu tiver tempo, o q significa que vai demorar um tanto, mesmo pq qnd eu chegar eu vou ter que comer os livros para dar conta de fazer tudo!!!

Eu fico por aqui porque tenho que fazer um trabalho para amanhã, oraito? Bjus e queijos, e até daqui a duas semanas…

A Maçã

Cansei dos relatórios minunciosos, das longas horas de estudo, dos silêncios além de sua voz. Perdi meu descompasso com o mundo. Antes eu não sabia dançar a sua música, e me divertia com a tentativa. Agora que tudo está no mais perfeito lugar, eu, que nasci e me criei anárquica, em todos os sentidos, não sei aonde diabos me encaixo em minha nova vida perfeita.

Não estou sozinha nem solitária, mas também não estou com os outros. Sinto saudade dos tempos da melancolia silenciosa, dos dias metidas em mim mesma, descobrindo todas as mentiras que já me contei, e todas as verdades que vão mudar algum dia. Sinto falta do tempo em que tinha algo a dizer, não somente a ouvir. Do tempo em que contemplar era esporte, não meio de vida. Das responsabilidades das quais podia me desfazer. Dos sorrisos sem sentido, porque tudo que sai da minha boca agora tem alguma razão. Dos dias-cama, dos dias-mesa, dos dias-banho, dos dias-escuro, dos dia-solidão. Sinto falta de todas as conversas nas quais me sentia deslocada, e dos dias em que mentia, disfarçava os sentimentos. De quando me sufocava ficar em casa, de quando as pessoas sentiam falta de mim pelo simples fato de que eu não estava lá, não porque elas realmente sentissem saudades.

Fui transplantada, ou me transplantei (e a voz ativa está mais passiva do que nunca) para uma vida perfeita, mas que não é na minha medida. Como um Chanel que não cabe em mim. Eu, que amo tanto o imperfeito, vejo uma vida completamente cor-de-rosa na minha frente, sou feliz todos os dias, e isso não me basta. Nunca achei que fosse dizer isso, mas sinto falta de minhas tristezas indevassáveis, de meus silêncios solitários, de minha busca incessante por algo que eu nunca encontrava, e que desconfio que seja eu mesma. Continuo sem encontrar, a propósito. Mas feliz. Vivo todos os dias no presente e no futuro, os dias do passado ficaram para trás. Mas um atrás tão atrás que estou esquecendo dos meus próprios passos. Parece que eu nasci aqui, completamente nova, em branco. Preciso de algo mais para me completar, apesar de me sentir completa. Acho que esse é o problema. Estou tão completa que me falta algo: um vazio. Não tenho mais vazio.

Meu objetivo era chegar aos 80 anos, dizer q vivi bem e o suficiente, e que valeu a pena, e morrer. Mas eu tenho 22 anos, digo que vivi bem, o suficiente, e que nunca valeu tanto a pena, e se eu morrer amanhã, mesmo morrendo, vou morrer feliz. E, neste exato momento, algo de minha tristeza volta só porque sou completamente feliz desde não lembro mais quando. Mas foi em algum momento em janeiro que eu comecei a sorrir e não parei mais. Mas essa vida é entendiante, de tão perfeita. Como a França. Tão perfeita, que chega a ser chata, apesar de me divertir todos os dias. Estou mesmo no lugar certo.

Sim, eu sei, preciso refazer meus passos. Mas não sei até onde voltar. O fato é que estou me sentindo uma Thelma no corpo de uma princesa Disney, atuando no filme errado. Só me falta falar com os pássaros, porque, de resto, não falta mais nada: a princesa, o príncipe, o reino distante e encantado, as fadas madrinhas, as aventuras, as bruxas más, tudo, está tudo aqui. E o que há de errado com isso? Nada. É precisamente isso que está errado: nada. Preciso do meu velho eu, sinto falta dos meus conflitos, tão pacíficos com minha personalidade hiperativa. SÓ isso.

E lá vou eu para o banho, depois cozinha, fazer o jantar e fazer de mais uma noite a melhor de minha vida. Porque todos os meus dias são assim, um melhor que o outro. Sim, isso é o paraíso. Mas talvez minha vocação seja de ser Eva, e o paraíso não foi feito para mim…

Aonde diabos foi parar aquela maçã?

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Sra. Tempestade - Tempestade de areia. Sequinha, sequinha.

Diário de Bordo. 3o. Mês, 14o. dia: Porque baixaria sempre rola…

Essa semana foi bem cheia. Vamos começar com a previsão do tempo. Aqui está realmente chegando a primavera. Está ficando bem quente, chega até uns 17 graus, e dps de muito suar dentro de meus casacos, um dia desses me vi andando de regata na rua… Não é pra tanto, mas toh quase chegando lá. Não tô usando mais meia-calça por baixo da calça e tem flores nascendo nas ruas, e as árvores secas já tem vários brotinhos. Uma belezura. Só as flores que David me deu estão caindo, mas também pudera, depois de um mês de pé, já estava na hora.

Muito, muito estudo, horas e horas na biblioteca, livros atrasados. Mas achei a prateleira onde ficam os livros de gênero do IEP, e já peguei Scott e Butler, claro. Estou de olho em Bourdieu, mas preciso terminar os Controles Continus (trabalhos para os extrangeiros, pra garantir q eles estão estudando e não só farreando) antes de mergulhar em mais um livro feminista. E depois que fui na biblioteca de Rennes II (a maior universidade da cidade), o IEP virou fichinha. Vou colar lá, pena q tem q pegar transporte público, pq n aguento carregar tanto livro na bicicleta… 

Depois da apresentação de David para a Conf. de Methode (onde aprendemos o xexelento método francês), matéria na qual ele tem q suar muito pra impressionar a professora, já q teve um desempenho horrível semestre passado, o pior da semana veio logo depois. Ele inventou, como sempre, uma sessão-tortura de cocégas, sendo q eu já tinha falado que, nesses momentos, eu não respondo por mim. Não deu outra: levou uma acidental cabeçada no nariz. Isso não seria tão terrível, se minha cabeça não fosse tão dura (eu juro q nem senti!) e ele já não tivesse quebrado o nariz outras duas vezes. Resultado: uma noite inteira com o nariz sangrando, dor de cabeça e sono, e eu, sem conseguir dormir, desesperada, implorando para ir no médico.

No dia seguinte, depois de muito sofrer, arrastei ele pela cidade inteira até achar quem atendesse emergência. Horas de espera (hospital público é foda em todos os lugares), e uma radiografia perfeita. UFF!!! Como é bom saber que eu não quebrei o nariz de ninguém! Que não fui responsável por uma cirurgia que nos ia custar até as calçolas e as cuecas…!!!

Nariz no lugar, fomos planejar nossas férias de primavera. Descobrimos uma amiga dele, Lili, que quer ir pra Itália, e ele está fazendo minha cabeça pra eu ir também. Os custos são altos, mas… vamos ver se gera.

Ah, mais uma notícia: as universidades continuam em greve, mas as greves são só uns dias em q a faculdade fica bloqueada. Mas essa semana teve um “plus”: 300 estudantes saquearam um Carrefour, foi o maior babado!!! Baixaria não é exclusividade nossa!!! =D

Fico por aqui e vou ver meu filme…

Bjs e até a próxima!!

Me mudando

Eu queria escrever muito hoje, é bem verdade. Programei milhares de palavras para esse momento. Mas aconteceu agora como tem acontecido todos esses meses: eu tenho um plano, um bom plano, diga-se de passagem, mas isso não é o bastante, e vai lá a vida e muda tudo.

Preciso dizer que nada está mais no mesmo lugar, e realmente quem veio não será quem vai voltar para aí. Não sei exatamente em que ponto me encontro, mas é certo que não posso mais voltar ao mesmo lugar onde estava antes. Vi demais para fechar os olhos ao que o mundo me mostrou e voltar à mesma vida. Provei sabores que jamais imaginei existir, e quando meus olhos brilham, eles estão pedindo mais. Eis a primeira vez na minha vida em que me sinto bastante em mim mesma, em que eu não sou maior que o mundo. E me sentir humana e pequena me faz a pessoa mais feliz do planeta nesse momento.

Descobri que não preciso conhecer lugares, mas ver os mesmos lugares de maneiras diferentes. Agora que descobri o que existe além de mim, preciso descobrir até onte posso ir. Não, realmente não vou olhar mais as pessoas e os lugares da mesma forma. Nem sinto mais as mesmas coisas. Tudo mudou, e não posso dizer que tudo está fora de lugar. Finalmente, parece que as peças encaixam, e eu estou encontrando um lugar para mim nesse quebra-cabeça. Sim, descobri também que tenho um lugar.

Queria dizer muito, muito mais. Mas minhas palavras são pequenas e insuficientes para abarcar o mundo inteiro, como eu. Mas, ainda assim, quero guardá-las para outro momento, quando elas servirão de farol para me mostrar o caminho de volta - e como seguir adiante.

Fico por aqui, sem tantas novidades além de mim mesma. O que preciso também não me oferece essa tela.

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Sra. Tempestade - Está chovendo na minha horta. Espero que minha terra seja muito fértil.

Diário de Bordo. 3o. Mês: Alguém faça o relógio parar de girar!

Cada vez mais relapsa, eu sei. Mas tem algumas explicações. Primeira é q estourei minha cota de download, e minha net foi suspensa por alguns dias. Segundo, o wordpress tá dando pau o tempo inteiro, um saco. Só funciona quando quer. Terceiro, eu não estou encontrando tempo pra muita coisa, minha vida anda uma loucura de tão desorganizada! Mas vamos às novidades…

Terça passada teve carnaval aqui, mas é super pequenininho, e não é feriado. Se chama Mardi Gras, e sai um monte de francês maluco fantasiado pela rua, como nos carnavais de antigamente. Eu vou colocar as fotos mal tiradas online, mas nem se empolguem: no ápice da festa, 300 malucos dançando da rua. É, quem entende de carnaval é mesmo a gente.

No entanto, passei o resto da semana tirando o atraso e estudando para uma apresentação na quinta-feira. Dia e noite estudando, literalmente. Larguei tudo de mão e chega fiquei tonta de tanto estudar. Nem lembrava o que era isso… Acho que estudar assim, só para a fatídica segunda prova de Paulo Pimenta. Resultado: a professora passou 11 minutos (eu estava com relógio, contei!) reclamando de minha apresentação porque não abordei a temática pela perspectiva que ela queria. Veja bem, eu tinha que falar dos cartazes políticos franceses entre 1919 e 1940, como parte da aula de história. Eu dei todo o arcabouço histórico e os cambau, e a mulher reclamou porque eu não falei do design!!! Ah, como diabos eu ia saber que a profa. de história queria que eu falasse de design??? Vai buscar coquinho em Saint-Tropez!!!

Depois de tanto estudar, é claro que me deu aquela lezeira mental que não deixa a gente fazer nada, o que está perdurando até hoje. No sábado, teve mais uma vez o tradicional futebol dos meninos aqui de Patton, que perderam pela sexta (!!!) vez para os europeus. Já era a época em que a gente era quem fazia futebol bonito. Só carnaval mesmo”!!!! huahuahauhauhauhauhauah!!! Mas, ao menos, o jogo me rendeu boas risadas!!! Ver todo mundo falando e xingando em espanhol (”Gustavo, cabrón!!! Chingada la madre!!!”) foi realmente imperdível! No sábado à noite, fomos para uma festa celta absurdamente cara (7 conto a entrada, do nível das boates mais caras em Rennes), mas que valeu a pena pela manifestação cultural. Era o ginásio de uma faculdade, sem qualquer decoração decente, com um palco com uns malucos tocando música celta, cerveja e cidras ruins feito o cão, e um monte de francês dançando dancinhas medievais, em grupo. Que cena!!! Bom, eles não têm ritmo nenhum, mas não nego que foi difícil acertar as danças mais coreografadas, em par principalmente. David e Flávio passaram a noite inteira reclamando porque com aquele dinheiro a gente podia ter uma noite decente em uma boate cara, mas gastaram uma nota com a cerveja ruim: “se a gente beber, talvez a festa fique melhor!”. Valeu pela experiência, mas eu não iria de novo. Se bem que eu queria aprender a dançar direito para mostrar aí… É bonitinho!!!

Domingo, assisti pela segunda vez Lavoura Arcaica. Nossa, é que nem O Pequeno Príncipe: cada vez que a gente assiste tem um novo significado. Perfeito, pela segunda vez.

Ah, recebi hj finalmente a cartinha de Cris, linda e cheia de desenhos para decorar meu quarto!!! Brigada, Cris!!! Vou tirar fotinhas pra mostrar como ficou!!! Os gatinhos abraçados são muito liiiiiiiiiindos!!! Amei, mesmo!!! Com todos os postais que David me deu e minhas flores, meu quarto está mesmo um verdadeiro lar!!! =D

É isso. Próximas semanas em casa, porque acabou a época de farra, então não esperem muita coisa. E tomara que até o final do mês sobre espaço suficiente para baixar os episódios de Gossip que eu não vi.

Beijos e queijos (estou experimentando vários, por falar nisso), e até a próxima!!! =D