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Diário de bordo. Dia 30: Passando a régua

Eu sei que muita gente reclamou que eu não escrevo e tal, mas aqui estou, e aproveito a oportunidade para fazer uma geral. Então, um mês. Muita coisa aconteceu, mas, o mais importante de tudo, é que, nesse tempo, com algumas ajudinhas (ou ajudonas) e muita força de vontade, consegui construir um lar. Tenho uma casa (um quarto, na verdade), uma rotina, um lugar para voltar e descansar depois dos falatórios em francês. Isso já seria bastante.

Em um mês, também pude conhecer algumas pessoas maravilhosas, mas, principalmente, a mim mesma. E fiquei muito feliz com tudo/todos que descobri. Também estou aprendendo demais sobre o mundo, mudando concepções antigas sobre os países, as culturas, e, mais ainda, sobre o Brasil e a América Latina. Parece que eu cruzei todos esses quilômetros para ficar mais perto do meu lugar. A cultura latina é a melhor do mundo, ao menos para mim, depois desse mês. Somos machistas e subdesenvolvidos, mas ninguém se diverte e ninguém produz conhecimento como a gente. Morram, europeus! =D

Descobri também que faculdade boa não tem a ver com nome, professores bons ou coisa do tipo. Faculdade boa é aquela aonde a gente aprende. O Sciences Po é maravilhoso, mesmo quando me ensina pela negação. Ao menos, eu tenho que reconhecer que eles valorizam conhecimentos que, para nós, são considerados superfluos, porque vivemos para o mercado de trabalho. E se tem um momento para eu aprender método, eis a hora.

O saldo é absurdamente positivo, porque encontrei muito mais do que procurava, apesar de ainda não ter encontrado algumas coisas que vim buscar. Mas tudo tem seu tempo. Estou vivendo uma vida só minha, explodindo de felicidade, e, mesmo confusa com todas as coisas que não posso resolver, estou muito segura de que vou encontrar o meu caminho, o que me deixa tranquila. E essa semana fechou com chave de ouro o primeiro mês do resto de minha vida.

Terça fui para um espetáculo tipicamente europeu: patinação artística no gelo. Sim, tipo dança no gelo, só que muito melhor, com os campeões europeus, a equipe francesa, com diferentes modalidades e por horas a fio (mais de 2h). É fantástico, é perigoso, é hipnotizante ver aquelas pessoas deslizando no ritmo da música, fazendo todas aquelas acrobacias com jeito de quem não está fazendo o mínimo esforço. Noite perfeita. Não poderia ser melhor!

Quarta, aula, aula, aula. Até tarde da noite. E eu ainda tenho que fazer o meu contrato com as matérias que escolhi… Se é que já escolhi! =D

Quinta foi o dia: almoço mexicano! Luis e David prepararam tortillas e me ensinaram o jeito mexicano de comê-las. É maravilhoso ter por perto pessoas que sabem realmente cozinhar: estava sentindo falta de comida de verdade!!! Enchi a barriga, mas logo depois teve o Parrainage: tortas de reis, comida típica daqui. Haja barriga!!! Meu padrinho não estava lá, nem o de Marija ou de Magda. Mas eu fiz biquinho e Gustavo disse que ele podia ser meu padrinho, mesmo sem ser francês! Meus veteranos são uns amores!!! Depois disso, Elis, a loira fatal búlgara, incrivelmente simpática, arrebanhou os calouros para nos animar e nos integrar um pouco, fomos tomar café, calouros e veteranos juntos, as meninas foram fazer compras no final das promoções depois. Essas promoções estão me deixando louca, estou me roendo de vontade de comprar tudo!!!! =D

Foi engraçado que comprei as mesmas florezinhas q tem no meu quarto para Marija, mas, ao invés de decorar o quarto, ela decorou o grupo: ninguém, inclusive os meninos, conseguiu escapar das florezinhas!!! huahuahuahuahauhauha!!! Foi cômico!!! De noite, festaaaaaaaaaa!!! Realmente, eu tenho que admitir, os ingleses sabem fazer uma festa. Boa música eletrônica, álcool da pior qualidade, e gente saindo pela janela. Como temos o pacto de não deixar chegar nos nossos países o que o povo faz ou deixa de fazer na festa, só posso dizer que curti demais, dancei muuuuuuito, vi cenas impagáveis, e, finalmente, a pegação rolou geral por aqui. Quando saí (fui uma das primeiras), a fila do banheiro já tinha uns 3 metros, tinha bêbada chorando por causa de homem, menino com menina, menina com menina, menino com menino, cachaça e salgadinho pra tudo que era canto. Me disseram que até a mesa quebraram no final. Eu, claro, sóbria e saltitante, voltei para minha cama quentinha - andando de salto na madrugada rennais. Quase 1 h andando, mas se perder na cidade é impossível, se vc tiver 2 neurônios funcionando. A maior parte das pessoas esperou o metrô voltar a funcionar.

Destruída, porque só dormi 3 hs antes de ir pra faculdade, assisti a aula maravilhosa de políticas públicas (o professor é a caaaaaaaara de Sebastian, até o jeito é igual!!!) e, depois de filar o francês para dormir, assisti o seminário de estudos latino-americanos. Em uma palavra: per-fei-to. Pensem: aula em espanhol, só com latinos e franceses que passaram um ano na América Latina. Uma professora incrivelmente inteligente e com idéias super provocativas, e cada aula, um professor convidado (não qualquer professor, aqui só dá a nata). A aula é tão boa que se prevê 1h45 de duração e levou a tarde inteira, até 17h30. Uou. Estou mudando completamente minha concepção sobre a América Latina, e lamentando horrores que para os brasileiros seja muito mais importante a Europa do que os seus países-irmãos. Eu queria tanto ter estudado sobre a América Latina em minhas aulas de história…. Meeeeeeeeerde!!! Mas agora, eu estou aprendendo muito e estou incrivelmente feliz por começar a criar uma nova visão geopolítica do mundo. Ah, esse sentimento que une os latinos até a professora compartilha: ela é chilena. Aula cheia de debates e intervenções, altíssimo nível, muito mais alto que qualquer aula francesa que fui. Está na hora de botar meu espanhol pra trabalhar.

Depois de lavar quilos e quilos de roupa, cheguei em casa, caí de sono e cansaço, passei o dia inteiro hoje respondendo emails, atualizando notícias, arrumando o quarto, que ficou completamente abandonado durante a semana. Quero tentar consertar minha bota, preparar um jantar gostoso e ver um filme. Espero que dê tempo, porque a quantidade de coisa pra limpar aqui cresce exponencialmente (ou eu sou muito limpa???), assim como a quantidade de emails para responder.

Ah, só queria dizer também que uma coisa que acho super fofo aqui é a fauna e a flora. Os pássaros mais comuns são os corvos, mas tem muitas gaivotas e corujas. As revoadas são liiiiiiiiiiiindas!!!! Também tem esquilos, gatos ultra peludos e fofinhos, cachorros gigantes. Todos os animais daqui são absurdamente grandes. As árvores secas têm um charme todo especial, e os pinheiros são umas graças! As cercas-vivas secas também me impressionam, porque enfeia muito as casas! Rs…

Bom, lá vou eu, lavar minhas roupas finas, o chão, tirar pó de tudo, lavar meus pratos, passar minha roupa lavada, consertar minha saia, minha bota… avemaria! Prometo que não levo tanto tempo pra mandar notícias da próxima vez, tá bom?

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Sra. Tempestade - Verde anil amarelo cor-de-rosa e carvão.

Diário de bordo. Dia 25: Como fazer turismo

Mont Saint-Michel. Uma aventura desde o início. Primeiro, perdemos o ônibus que leva até a estação onde pegaríamos o ônibus. Resultado: fomos embaixo da chuva até a Saint-Anne pegar o metrô pra chegar na estação. Perdemos o ônibus de 9h30 e o seguinte era 11h30. O pessoal aproveitou para tomar café. Estava todo mundo morto: os meninos fizeram reunião masculina no dia anterior e eu tinha tido insônia. Fernanda estava brigada com Flávio. Ao menos, quando pegamos o ônibus, todo mundo dormiu, menos eu. Fiquei ouvindo o mp3 de David (hip hop mexicano é legal!) e, mais uma vez, me odiei por ter esquecido o meu (ou o de meu pai, enfim). 

Chegamos, o tempo estava fechadíssimo. Mas chuva aqui é assim: cai o tempo inteiro, mas é fraquinha. Só molha se ficar parado embaixo dela. E temos tantas camadas de roupa que dava pra entrar numa piscina e ficar seco…  Quando eu vi aquela turistada, cheio de japa (e o povo insistia que era chinês, mas era japa pq eu cansei de ver anime em minha vida e sei o q significa arigato e konichiwa), começou a me dar gastura. Mas tudo bem. Vamos lá. O lugar é lindo, super medieval, super pequeno. Apertado que só, tem ruas que só passam dois por vez. Tiramos várias fotos (vide Picasa), e fiz questão de sair desbravando o lugar, desviando do caminho por onde os outros turistas iam. O resto do pessoal queria fazer turismo de turista, e eu tava meio de saco cheio disso, então me piquei pelas ruelas acima. Modéstia à parte, também fui em que encontrei os melhores lugares.

Pagamos 5 euros pra ver a abadia. O lugar é maravilhoso, mas tava tão cheio que perdeu um pouco a graça. O cara da empresa de ônibus diz que no verão e na primavera é pior, que tem engarrafamento. Merda. Tentei fugir dos outros, ficar na minha, tirar fotos, curtir o lugar. No final, cada um foi pra um canto ver o que gostava, e nos encontramos na saída. Em umas 3hs vimos tudo, mas eu estava decepcionada por minha sonhada visita ao Mont Saint-Michel ter sido só aquilo. Enquanto Flávio e David discutiam se iam comer lá, onde tudo é absurdamente caro, ou esperariam pra chegar em Rennes, eu vazei e fui descobrir mais lugares. David veio me perguntar o que eu tinha, eu disse q tava de saco cheio de turismo turistóide. Apesar de preferir uma partida de futebol do que uma visita àquele lugar, ele teve a grande idéia: vamos para a praia!

A praia é ultra lamacenta, e tinha avisos de que tinha areia movediça. Eu estava com minha bota de salto, porque o ziper da outra quebrou (e não toh achando quem consertar!!! socorrooooooo!!! ela é a bota que eu mais uso!!!), e roupinha bonitinha, maaaaaaaaas… mesmo com tudo isso… foda-se. Vamos para a praia!!! Saímos eu, David e Luis para a praia, enquanto Flávio e Fernanda preferiram ficar num lugar caro e comer. Enlameados e congelados, mas felizes, vimos as melhores vistas e tiramos as melhores fotos. Molhei a mão no Canal da Mancha, e posso dizer que a água é fria que pinica! Foi maravilhoso! Finalmente senti que estava valendo à pena.

Na volta, vimos um pôr-do-sol maravilhoso do ônibus, ao menos, quem estava acordado, e fomos comer kebab felizes! O problema foi que já tinha sujado de lama uma calça no parque. Agora sujei a outra no domingo. Só me restou uma calça e as saias. E meu dia de lavar roupa é sexta, quando faço mercado, então vou ter que rebolar pra dar um jeito. Se encontrar quem lave roupas antes, eu colo.

Enfim! Mesmo no frio e na chuva, aproveitamos a viagem. Meus amigos calouros ficaram por causa do tempo. Paciência. Mas, como o lugar é muito turístico, e, portanto, um tanto caro, outro passeio desse vai demorar de acontecer.

Ontem não fiz nada demais. Limpei o quarto, os sapatos, etc. No final do dia, saí pra tentar consertar minha bota, sem sucesso. Quem conserta sapato n faz isso. Vou procurar agora costureiras. Ao menos, achei uma mini plissada xadrez por 3 euros, o que me deixou incrivelmente feliz. Também comprei mais 1 par de meias, 5/8, porque as meias calças não estão dando pro gasto: já estão muito gastas pra usar com saia e aparecer.

Hoje, aula de Mme. Toupin-Guyot. Cada aula dela é como se meu cérebro tivesse todas as energias sugadas. Na próxima, vou levar o note pra ver se dou conta de copiar as coisas mais rápido e de forma legível. 

Vou tirar a soneca da tarde e estou pensando se vou ou n para a aula de Política Comparada, porque eu amei o assunto mas n gostei nada do professor. Acho que vou acabar indo. Talvez saia de noite, ainda não sei.

Ah, obs importantes:

1) a cada dia, minha comida melhora um pouquinho, o que é um bom sinal, já que percebi que economizo mt comendo em casa e não no RU. Pena que meus amigos (todos recebem bolsa) sempre comem lá, e acabo ficando meio isolada das conversas qnd apareço. Paciência.

2) hj a cidade acordou com uma cerração que não dava pra ver 50m à frente. Enquanto continuar assim, minha bike fica encostada, coitada… ¬¬

3) vou ver minha primeira greve geral na França! Vai ser quinta feira pq Sarko quer fazer uma reforma na Educação que vai super prejudicar os professores. Os outros setores da sociedade, em solidariedade, vão parar. Só quem não vai parar são os estrangeiros: vai ter o Parrainage, que é a recepção que o IEP faz pra gente, onde vamos conhecer nossos padrinhos (tomara que o meu seja legal!!!), e dps, festa de Grace, uma inglesa. Dizem que as festas dos ingleses bombam, então vamos ver se é verdade ou se só a gente sabe fazer festa mesmo…

Mts beijos e até a próxima!!!!

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Sra. Tempestade - Não tenho tanto a falar qnt a calar…

Protegido: Capítulo III

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Protegido: Lost in Translation

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Diário de bordo. Dia 23: Mais uns dias, mais umas noites.

Esses dias não trouxeram muitas novidades. Na verdade, como eu já estou me acostumando com o cotidiano aqui, as coisas, aos poucos, estão deixando ser novidade para mim. Mas tem algumas coisas que vale a pena registrar:

1) Depois de me acordar do meu sono da tarde e descobrir que eu viro um monstro quando as pessoas fazem isso, David me levou para lavar roupas. É fascinante como a secadora deixa a roupa praticamente passada!!! E eu nunca mais faço isso sem algo para preencher o tempo. Ao menos foi divertido ficar conversando com ele e o amigo recém-chegado do mexico. O cara é hilário.

2) A aula de Políticas Públicas é muuuuuuuito boa!!! O prof. é ótimo, e, finalmente, eu tenho uma matéria mais próxima do meu curso. Se bem que, não vou mentir, é ótimo esse negócio de passar um semestre sem ver Direito. Acho que vou chegar relaxada e pronta para mais dois terríveis semestres de Proc. e Prática Civil!

3) Estou, aos poucos, aprendendo a ser uma “dona de quarto”. Perco muito tempo com besteiras, o que amo, mas estou tentando programar melhor minhas atividades e meus gastos para economizar tempo e dinheiro. Pretendo ser mais saudável, porque sinto que já estou começando a engordar (a gente fica mt tempo no quarto!!!), e voltei a pular corda. David está fazendo lobby preu correr com ele e Arata, e disse que minha falta de ar se resolve com atividade física e uma rápida ida ao médico. Vou pensar no caso, mas hoje experimentei um pouco disso e, sinceramente, pular corda me parece mais agradável… Ao menos, é mais quentinho e seco.

4) Ontem teve festa no quarto de David, pra beber o rum e a tequila que o amigo dele trouxe. Foi fácil começar a festa, difícil foi parar. Fizemos um esforço muito grande pra conseguir levar a galera pra um bar na Rue de la Soif, muito legal, e depois, Underground, como sempre. Meus amigos são fracos, então foram embora mais cedo, ou acabaram dormindo encostados em algum lugar. Noite mais ou menos. Na verdade, saí só por falta do que fazer. Voltamos embaixo da chuva, num frio do cão, completamente encharcados. Mas, depois de secar meu cabelo com o secador de 5 euros, que é cada vez mais útil, fui muito feliz para a minha cama.

5) Hoje, às 10 da matina, David bateu na minha porta pra ir pro parque que tem aqui perto, como a gente tinha combinado ontem à noite, mas eu achei que ele não estava falando sério. Tinha acabado de chover e estava frio e úmido!!! Ele realmente tem esperanças de me fazer correr. Mas eu estava com tanto sono que esqueci de minhas luvas, e ficamos rodando pelo parque, onde eles correm, e por ruas aqui perto, congelando e falando de nossas vidas. Mais um pro clube que acha(va) que eu sou bolacha.

O parque é mesmo muito bonito, deve ser uma coisa de louco na primavera. Se o chão não estivesse lamacento, e eu não tivesse sujado minha roupa de lama, ou congelado meus pés e minhas mãos, seria perfeito. David tirou umas fotos (eu me recuso a fazer isso quando alguém pode fazer por mim), em breve colocarei no meu Picasa.

6) Amanhã vamos pro Monte Saint-Michel, que é uma abadia que, na maré alta, vira uma ilha. Estou ansiosa, é um dos cartões postais mais conhecidos daqui.

Fico por aqui no meu jornal (quase) diário. Amanhã espero trazer mais notícias!

PS: Não vou dar dica para a senha do próximo post. Esse espaço sempre foi mais meu do que dos outros, então, com licença.

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Sra. Tempestade - Isso está começando a parecer um lar…

A senha

do post anterior é a música tema de minha querida festa de despedida à beira da piscina albaniana. Quem sabe, sabe, quem não sabe espera pelo próximo post.

Protegido: Assim ou assado

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Diário de bordo. Dia 21: La fac ou la fuck?*

Faculdade. Os meninos já tinham me falado de como eram as aulas, mas eu tive que ver com meus próprios olhos. A primeira coisa que fica evidente é que os franceses são ABSURDAMENTE metódicos, em níveis jamais vistos no Brasil - e, segundo os estrangeiros, em qualquer outro lugar do mundo. Existe uma e somente uma forma de se apresentar um trabalho, oral ou escrito, em qualquer matéria aqui. Ao meu ver, isso é de um positivismo limitado e irritante, porque o conteúdo aqui vale tanto quanto ou até menos do que a forma.

Ponto dois: aqui não existe discussão em sala de aula. O/a prof. fala, os alunos anotam TUDO que eles/as falam, e vão embora. Fim de papo. Não sei porque diabos é assim, mas é assim. Nós, estrangeiros/as, nos bulimos pra falar, mas não tem jeito. Aqui é boca fechada e caneta na mão (ou mão no teclado, à escolha do freguês).

Ponto três: fazer anotações do que profs falam já é complicado, agora pensa em francês! Mas até que toh pegando o jeito… 

Agora, minhas matérias:

1) História e civ. francesa (obrigatória): a profa. é simpática, e é a responsável por nós, gringos/as. Fala rápido, é impossível anotar tudo, e sempre chega aquela hora em que a gente se perde pq tava anotando a informação anterior. Saí da aula tonta de tanta informação, e espero que um dia eu consiga processar tudo isso.

2) Política comparada: o prof. tem mt experiência, mas não tem nenhum controle sobre a sala (o povo conversa, lê jornal, usa o note pra ficar na net…). O assunto é muito interessante, mas depois de 1h ouvindo aquele monólogo, começa a dar uma coceira e vontade de fugir dali. E, claro, tudo é uma visão francesa do mundo.

3) Estudos de gênero: O CÉU!!!! Tem 2 profs: um homem, diretor do IEP, e uma mulher, mais nova. E, pasmem, a aula estava cheíssima!!! E cheia de homem também!!! Posso dizer com tranquilidade que tinha 1/4 de homens. E TODOS os calouros estavam lá. É uma delícia ver o mesmo assunto por uma visão diferente, e conhecer novos autores. Estou super empolgada, apesar de David ter tentado baixar a minha bola dizendo que estava cheio por falta de opção, não pq o curso é bom. ¬¬

4) Políticas culturais: Depois de 10 min. ouvindo o mesmo prof. de Pol. Comparada, eu desisti. Quando chegou o intervalo, peguei minha mochila e vazei. Tudo tem que girar em torno da França???? Que saco!!!

5) História da África: Mesmo esquema das outras aulas. Só que o assunto é muito interessante. O que mata é que não tem nem 1 negro na sala, e que a visão da história africana é inteiramente européia. Mas estou revendo muitos de meus conceitos de história, e comecei a pensar que tudo que sei sobre o mundo é a visão européia dele. De qualquer forma, quero fazer essa matéria porque sinto muita falta de conhecer a África, que tanto influênciou minha cultura (e, aqui, eu vejo o quanto!).

6) Conferência de Metodologia de História e Civ. Franc.: É a complementação do curso anterior. A sala é menor, então é um ponto positivo. O objetivo desse curso é fazer a gente aprender a metodologia francesa (é só p estrangeiros/as) e apresentar trabalhos sobre o curso de história.

As outras matérias ainda vou ver amanhã, e tem uma que só começa semana que vem. Aí eu escolho o que fica e o que vaza. É realmente um saco uma aula onde não tem discussão. Mas eu sinceramente acho que vou aprender muito aqui, nem que seja um contra-aprendizado: de tanto discordar da metodologia e conteúdo deles, eu vou começar a criar os meus. Além disso, a aula de estudos de gênero é fantástica, e eu com certeza vou aprender a fazer ciência aqui como eu nunca aprendi na minha vida. Vai ser um pontapé gigantesco na minha monografia. =D

No mais, na terça assistimos o filme O Albergue Espanhol (Auberge Espagnol, que em francês é uma expressão que quer dizer “uma zona”), que é legalzinho, nada demais. Daí vem o título do post, pq tem esse trocadilho no filme. Enfim, só vendo. Meus/as amigos/as estão mais relaxados, e a gente se diverte mais juntos, mesmo quando não fazemos nada.  Por mim, a gente nem via o filme: ficava rindo, conversando e tomando vinho a noite inteira.

Posso dizer também que, finalmente, estou mais tranquila e começando a me sentir parte desse lugar - ou esse lugar, parte de mim, não sei. Engraçado foi que isso só aconteceu a partir do momento em que eu criei um laço com alguém aqui, e de uma forma tão espontânea e repentina. Acho que agora que minhas incertezas foram postas de lado, posso curtir a cidade, o vento frio, o silêncio e mesmo a solidão - que só é boa quando é uma escolha, e não uma falta desta.

Engraçado também que sempre que estou andando (e ando muito aqui, por gosto e por economia, mesmo às 7h40, quando está tudo escuro e gelado), tenho milhares de idéias para escrever, mas quando venho pra cá, só sai meia dúzia de parágrafos. Vai entender. Ao menos, percebo que meu coração está mais tranquilo porque não tenho tanta necessidade de falar como antes. Eu tenho que concordar q vc, Guebo, eu ainda estava muito presa à minha vida aí. Espero que eu consiga me desprender aos poucos.

Fico por aqui, tenho milhares de coisas pra fazer: lavar roupa, pratos, estudar, enfim. O tédio das primeiras semanas definitivamente foi embora e dá sinais de que não vai mais voltar. Ainda bem.

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Sra. Tempestade - Estou aprendendo que as palavras não têm tanta importância. Os olhos sempre podem falar mais.

Diário de Bordo. Dia 19: Achados e perdidos

Ok, eu sei que estou devendo dois dias a vocês. Mas é que domingo eu cheguei cansada e mal humorada (eu estava realmente um monstro), e não tive saco de escrever, só queria dormir. Ontem, na hora que eu abri o painel do blog para escrever o diacho do post, algo incomum aconteceu e eu acabei não escrevendo nada. Mas vamos aos fatos, vou tentar tirar o atraso rapidamente.

Dinan. Cidade medieval, murada, linda, impressionante. Fomos muitos pattonianos, mas, de pessoas próximas, só as calouras (os calouros ficaram dormindo!). O grupo ficou dividido entre os mais velhos e os mais novos, mais uma polonesa amiga de Magda, pelo seguinte motivo: entre os mais velhos, eram todos latino-americanos, espanhóis e um italiano. Então todo mundo falava espanhol, e as calouras e a polonesa ficavam boiano. Eu estava entendendo tudo, mas não quis deixar minhas amigas pq não sou tão próxima dos outros, e achei isso uma falta de respeito. Mas, enfim. No final, as meninas ficaram tão chateadas, que dividiram o grupo e saímos nós mesmas explorando a cidade.

Lá, é tudo muito silencioso e bucólico, como num filme. Imagino que o fato de ser domingo deve ter ajudado, mas não parece um lugar muito agitado. Não dá pra explicar direito como é estar no cenário dos filmes de Rei Artur: tem que ver. Assim, convido-os a dar uma olhada no meu Picasa: http://picasaweb.google.com/samiranoronha/Dinan?authkey=SHlSr0UqNnY&feat=directlink Mais fotos virão, porque ainda não peguei as fotos das meninas, onde tem fotos nossas também.

Mas o dia foi super cansativo, naquele subir e descer ladeira, e as calouras não são lá o grupo mais animado do mundo. Eu só queria voltar pra casa, e ter alguém pra me receber, dizer boa noite, e assistir televisão comigo. Mas aqui a gente volta pra casa, e tem uma zona, porque não deu tempo de arrumar o quarto, sem ninguém, ao menos, para fazer piada disso. Dormi.

Ontem eu acordei melhor e mais disposta. Primeiro porque não vou ter aulas nas segundas, o que é fantástico, já que meu final de semana cresceu. Segundo, porque eu faxinei meu quarto todo, bem faxinado mesmo, e isso deu um alívio ao menos visual. Saí, solitária, embaixo da chuva rala, para resolver meus problemas. Acabei encontrando Fernanda e surpreendentemente tivemos uma agradável tarde juntas. Cheguei cansada e feliz, arrumei minhas coisas, e parti para minha diária conferência de emails. David encaminhou um email de Eeva, a finlandesa, contando como vai ser lá. Aparentemente, ela é mesmo muito simpática, o que confirmei com outras pessoas ontem, e ficou muito feliz de uma menina ir. Ela disse também que espera que o mar esteja congelado para a gente nadar naqueles buracos no gelo (viuxe!), e que vai avisar sobre o clima, pq pode estar entre +4 e -20, mas que qualquer coisa ela, o irmão e o namorado podem empresatar as roupas (ainda bem que trouxe o casaco de neve!). E que não precisamos levar toalhas e lençóis, porque ela vai prover tudo! Ah, teremos um quarto pra gente, com cama pra td mundo! Infelizmente, Jesus preferiu ir pra Berlim com Flávio, então seremos só quatro. Mas com David e Gustavo, estou muito tranquila.

Aí chega a parte engraçada. Por conta desse assunto, eu e David trocamos emails a noite inteira (o que é ridículo, já q ele só está a dois andares), e, como surgiu o assunto de habilidades culinárias (ele faz comida mexicana! iei!), e eu disse que viveria a pão e leite se dependesse das minhas, ele gentilmente trouxe iogurte e laranja, para diversificar meu cardápio. Resultado: ficamos conversando até 1h30 da matina, e só paramos pq ele tinha aula hj 8h. Finalmente, pude falar de mim, aqui, e não só do Brasil. E vi que ele passou e passa por dificuldades de adaptação muito maiores que as minhas, o que me fez sentir melhor por não ser a única a ter problemas. Mas o melhor de tudo mesmo foi saber que agora existe alguém com quem realmente posso contar aqui. Estou muito mais tranquila e segura com isso.

Ainda assim, foi esquisito pra caramba falar português e ouvir a resposta em espanhol, e ele ficou maravilhado como era possível entender perfeitamente português (Flávio fala espanhol com ele, e, Gustavo, francês) se eu falasse devagar e sem muitas gírias (descobri que eu falo mt gíria e xingo muito, por sinal). É estranho também ficar tão próximo de alguém com menos de uma semana que a gente se conhece, mas é uma situação meio óbvia aqui: estamos tão fragilizados e expostos, que nada mais natural do que procurar conforto na primeira pessoa com quem nos identificamos.

Enfim. Lá vou eu para minha primeira aula em francês, bem humorada e feliz, por saber que se eu ficar doente ou entediada de novo, posso subir dois andares e pedir ajuda - apesar dele ter feito piadinhas sobre o fato de eu ser feminista, e, na visão dele, não precisar de nenhum homem. Espero que não chova tanto, porque ainda pretendo resolver outras coisinhas hoje.

Até mais tarde, ou até amanhã. Vai ser legal contar sobre meu primeiro dia de aula - e me dá um frio na barriga como no meu primeiro dia de aula na UFBA.

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Sra. Tempestade - Tudo acaba bem. Se não está bem, é porque ainda não acabou.

Diário de Bordo. Dia 17: Destruída

Hoje passamos o dia em Dinan, cidade medieval a 1 hora de Rennes. Mas prefiro contar quando postar as fotos no Pìcasa (o que será em breve, só faltam as legendas), e de qualquer forma, estou morta de cansaço e sem saco de escrever. Quero cama!!!

A quem interesse, a senha do post abaixo é o nome do vizinho de Iago. E não me perguntem quem é Iago. Quem sabe, sabe, quem não sabe, não lê.

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Tempestade - Hoje, só amanhã.