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Carta para a gente que vive no futuro do pretérito

Eu ainda era muito nova quando descobri que a gente não gosta nem desgosta das pessoas pelo que elas são. Nos relacionamos tão-só com as projeções que fazemos dos outros, e com o que essas pessoas representam para a gente. Por isso não enxergamos pais como seres humanos, por isso tornamos santos aqueles a quem admiramos, por isso é tão difícil perdoar quando a pessoa que amamos nos decepciona: nossos sonhos não nos decepcionariam.

Eu sei bem como descobri isso. Me apaixonei por um cara pelo qual devia me apaixonar apenas porque ele parecia ser quem parecia, e eu era adolescente - e, portanto, precisava me apaixonar por alguém. Aliás, já perceberam como somos mais apaixonáveis justamente quando precisamos de um apoio nessa vida? Então atiramos todas as nossas expectativas em cima de um desavisado - que provavelmente também está esperando que você resgate ele num cavalo branco.

E isso não acontece só com as paixões. Somos tendentes a odiar pessoas odiáveis, e a buscar o melhor delas quando devemos amá-las - ainda que sejam odiáveis. Justificamos as atitudes alheias para torná-las piores ou melhores de acordo com a nossa conveniência ou expectativas. Ou, pior, não aceitamos as justificativas delas para os erros totalmente humanos (e, por isso, adoráveis e odiáveis) que elas cometem.

E por aí vamos: queremos o preto no branco e achamos os outros indecisos quando já sabemos o que queremos, ou vemos tudo através de um arco-íris e o mundo é simplista quando nos achamos mais profundos que todo mundo. Só há uma medida para tudo, e essa sempre será nós mesmos.

O amor que você sente não é pela pessoa, mas pelo que ela significa pra você. O ódio que você sente talvez seja a frustração que essa pessoa te fez ver. O carinho talvez seja gratidão pelo que ela fez. A admiração deve ser pelo que ela fez que você queria ou deveria fazer, mas não teve a coragem ou a paciência. A saudade dela certamente é o passado do qual você não quer abrir mão. O santo que não bateu talvez seja uma sensação particulamente ruim que aquele dia te causou.

A projeção é a forma mais básica de relacionamento nesse mundo, e feliz ou infelizmente a maior parte daquilo que sentimos em relação às pessoas pouco tem a ver com a realidade do outro. Provavelmente aquele alguém nem tem idéia do quanto é amado, odiado, quanto faz falta, ou o que diabos você viu nele. Se existem relacionamentos verdadeiros? Talvez a partir do ponto no qual passamos a ler o outro (seja por uma extensa ou intensa convivência, ou seja por uma projeção acertada). Mas como saberemos, finalmente, se o outro é realmente o que a gente pensa? Quando? Nunca ouviu falar da história em que fulano que conhecia beltrano há anos nunca imaginou que ele ia fazer o que fez? Eu já. E foram muuuuuuuuuitas vezes.

Por que tudo isso? Por que o que você sente está dentro de você. “E assim, quaisquer que sejam os obstáculos que entravem seus passos, guarda sempre no coração doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão”. Lembra que isso está na minha parede? O outro é só aquela versão de você que você ama, ou que você odeia, ou que você deveria ter aproveitado, ou se afastado, não importa. Você não sente saudade dessa pessoa, você sente saudade de como você se sentia. Talvez ninguém tenha mudado além de você. Ou talvez o mundo inteiro mudou e você ainda insiste em ser o mesmo. Está tudo dentro de você - e seus sonhos são a maior prova disso.

O ser humano é feito de rituais, e as representações são a forma como a gente se expressa, sente, vive. Agora faça um ritual e dê cabo das representações que já não são representativas. Ou construa um altar e adore o passado. Ou, se é uma re-presentação, então aproveite o que ainda está no presente e mande às favas o futuro. Mas nunca esqueça que é  só uma representação. E a peça só acaba quando agradecemos e fechamos as cortinas.

Carta aos professores que nunca devia ter tido

Será que vocês sabem a sua importância na minha vida, nesta vida que não teve nem tantos fracassos nem tantos êxitos simplesmente porque não encontrou desafios suficientes? Será que vocês sabem quanto ódio me fizeram sentir desta vida que não tem certezas, na qual tem razão o que grita mais forte, o que tem mais dinheiro ou o que é superior, por uma mera convenção hierárquica? Aliás, quando vocês alcançam o poder - se chegam a ter, de fato, poder, e não mero ego inflado - vocês parecem perder por completo o contato com a realidade e acabam acreditando que são melhores do que realmente são: quanto mais alto vocês sobem, mais medíocres vocês ficam.

Será que vocês se importam com o impacto que vocês causam sobre as pessoas, com as lágrimas que já fizeram derramar, com os sonhos que arrancaram de tantos peitos? Ou a sede de poder é tanta que vocês simplesmente estabelecem essa imensa barreira entre vocês e os outros mortais para que não sejam incomodados com os sentimentos alheios? Será que vocês realmente um dia chegaram a acreditar que vocês ensinam realmente? Não importa. Vocês passaram num concurso. É seu pleno direito acabar com a vida acadêmica de quem vocês quiserem, e nosso pleno dever obedecer suas ordens absurdas. O que vocês dizem nos avaliar, finalmente avalia a vocês mesmos: as provas, correções e, especialmente, as reprovações em massa só demonstra que se há alguém aqui que precisa aprender é você. Não é falta de experiência, não é falta de capacidade intelectual. É só falta de humildade mesmo pra assumir que o erro, pelo menos na metade das vezes, é seu.

Vocês conseguem dizer quantas oportunidades deram aos seus alunos (e certamente foi um professor que inventou essa expressão triste: a-lumno, sem luz)? E quantas vocês tiraram, vocês sabem? Quantas pessoas saíram de suas salas de aula mais desestimulados do que antes? Quantas pessoas perderam totalmente o interesse que tinham pelo assunto porque você não tem a capacidade de fazer o seu trabalho com paixão e competência? Voltem para os seus gabinetes e escritórios, por favor, os estudantes estão muito melhores sós do que mal acompanhados!

Eu queria dizer que vocês podem botar a culpa em nós, se quiserem. Mas cada bom aluno que entra na sua sala e sai decepcionado com a academia é mais uma prova de que o único medíocre ali é você. Vocês são realmente um grande exemplo para mim: se quero ser acadêmica é para NÃO ser como vocês, para mostrar aos estudantes que vocês decepcionaram que há prazer, beleza e força no conhecimento, e que cada um que tenha o interesse vai encontrar uma forma de chegar até ele.

Eu sei que vocês ainda não vão sair por completo de minha vida, ainda não vão deixar de me atrapalhar. Talvez alguns exemplares da sua espécie infeliz me acompanhem até o final dos meus dias. Mas eu juro que por cada um de vocês que eu passar eu vou mostrar de que sou feita. E podem esperar. Quando eu tiver a autoridade para o meu argumento, que certamente merecerá atenção não meramente por ser argumento de autoridade, eu farei questão de voltar e calar a todos vocês com uma pilha de títulos na mão e um mundo de conhecimento aos meus pés, só para mostrar que um professor se faz com competência, e não com um concurso.

Saudações daquela que lhes odeia tanto quanto a um inseto que fica zunindo em nossos ouvidos, tirando a nossa paciência e atrapalhando as coisas importantes da vida.

Samira.

Intimidade pública

Tenho sido assediada com umas perguntas impertinentes, inconvenientes e totalmente fora de hora, lugar, pessoa ou lógica. Passo um ano sorrindo e sofrendo quase só (créditos aos que merecem esse quase), e, de repente, quando aporto nas terras tupiniquins todo mundo TEM que fazer parte do que pra mim durante todo o tempo foi algo absolutamente íntimo. Por quê?!

Será que as pessoas não percebem que, em uma relação que só cabe dois, o lugar dos demais é ao lado, apoiando, ou longe, de boa, mas nunca no meio? Quem esteve ali pra todas as horas, viveu todas as horas. Quem plantou e cuidou esse momento foi quem viu ele florescer. Não é que eu esteja cobrando a presença de outros em momentos anteriores. Pelo contrário. Só quero que as pessoas percebam que é absurdo me cobrar algo que não pertence a ninguém mais além de mim e de meu marido, e que se quisemos compartilhar com algumas poucas pessoas, isso diz respeito à gente, a mais ninguém.

Infelizmente, eu estou aqui justificando isso porque algumas pessoas ainda não perceberam o sentido do que fizemos. Eu não estava fazendo um evento social, eu estava vivendo o momento mais feliz de minha vida. E tem um monte de gente acabando com esse momento e tirando a cor do que foi totalmente cor-de-rosa porque não entendeu que tem certas coisas que são intimidade pura, e que se algumas pessoas mais participaram desse momento é porque elas foram fundamentais para que esse compromisso fosse selado, não porque eu faça um ranking social em minha vida.

Podemos gritar para o mundo que amamos um ao outro, mas não precisamos. É mais gostoso falar baixinho. Por que eu não avisei ainda ao mundo inteiro? Porque não foi o mundo inteiro que nos ajudou a secar as lágrimas, que riu com a gente quando estávamos felizes, ou que deu todo o impulso para que a gente fosse longe, França, México ou Brasil.

De resto, só posso dizer que quem cobra a presença justifica a ausência. Os que estiveram lá ofereceram a companhia de graça, só com amor em troca. Nada melhor do que celebrar esse momento dessa maneira: só com pessoas que sabem amar doando-se incondicionalmente… A força desse símbolo supera o próprio significado e se transforma em propósito…