Crônica de uma feminista moderna
Ontem tirei a manhã para, corajosamente, arrumar a estante onde ficam todas as minhas coisas da faculdade. Quase tudo teve um destino imediato: uma caixa fechada, amarrada e escondida dentro do meu armário. Mas há algo que conseguiu superar bravamente, com tantos anos e mudanças, o cruel teste da gaveta. Na maior parte das vezes eu prefiro esquecer o meu passado. Ontem, me deu muito orgulho lembrar - e perceber que preciso recuperar algo do que fui. Para entender a motivação para escrever as palavras a seguir, basta ler esse texto: http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/129518
São oito horas da manhã. O professor profere a sua habitual verborragia e eu penso por que diabos eu acordei tão cedo hoje para ver isso. Como um consolo, eu penso que alguma mulher, um dia no passado, lutou para que eu pudesse estar aqui – de sandálias e boina – ouvindo o falatório, deslocado da realidade, de um professor machista. Graças a essa mulher eu estou nessa sala, e um dia estarei numa sala do Poder Judiciário (sic) – ou a sorte queira que seja no alto do Ministério Público do Trabalho (sic). Meu consolo é que não vou precisar fazer metade do trabalho que ela fez: essa mulher abriu os caminhos para mim e, por isso, vale a pena estar nessa sala.
Não que eu esteja feliz aqui, mas, em breve, eu descobrirei que poderia ser muito pior. Enquanto eu faço um esforço descomunal para prestar atenção na aula, circula um bilhete pela sala, dirigido a mim e à minha amiga, tão entediadas com a aula e tão orgulhosas de representarmos aquela mulher. Alguém recebeu ontem um e-mail cretino, feito por uma mulher (ou não, viva a vida anônima da internet, onde podemos ser quem quisermos) frustrada e ignorante (e em breve vocês entenderão porque assim a defino), e achou que seria muito divertido enviar um bilhete anônimo com tal e-mail para essas pobres estudantes entediadas, mas orgulhosas.
Nós abrimos tal bilhete um tanto curiosas por não reconhecermos a letra de quem se chama de “amiga”, e nos deparamos com o título “Desabafo de uma mulher moderna”. Fonte Courier New, tamanho dez, padrão de e-mail. Respiramos fundo, pensando que é só uma brincadeira. “Bilhete anônimo, made in e-mail? Lá vem!”. E lá veio. No início, a autora, cansada imagina uma hipotética cena bucólica, na qual “nossas” avós (as dela, as minhas, não!) viveram o “felizes para sempre” das histórias da Disney, fazendo comida e tricô a la Dona Benta. E depois vem a frase que eu precisava ler às oito da matina para me sentir feliz: “aí vem UMA FULANINHA qualquer que NÃO GOSTAVA DE SUTIÃ nem tão pouco (sic) de espartilho, e CONTAMINA várias outras REBELDES INCONSEQUENTES com idéias MIRABOLANTES sobre ‘vamos conquistar nosso espaço’” (destaque meu)!!!
Impropriedades históricas e lingüísticas à parte (daí vem o ignorante a quem me referi ali atrás), eu tive que reler o mesmo trecho para entender que essa dita mulher moderna se referia à mulher de quem eu tanto me orgulhava em meus devaneios quando recebi o bilhete. Mas o problema, realmente, era que a “mulher moderna” não parava, atirando impropérios, preconceitos e ironias às feministas.
Às oito da manhã eu sinto meu coração bater mais forte, quase a saltar pela minha boca, meu rosto ruborizar de ódio e algumas dúzias de palavrões mal organizados explodirem contra a muralha do meu bom senso. Então respiro fundo e termino de ler, glosando todos os absurdos diante dos meus olhos.
Essa pobre mulher frustrada, que se diz moderna, fala que antes das feministas as mulheres tinham o mundo a seus pés. E era verdade. Tudo que havia no mundo, tirando tudo que pertencia aos homens, era das mulheres. E, visto que até as próprias mulheres pertenciam aos homens, a moral da história é que restava a elas possuir os bordados, os animais domésticos, as comidas e a educação das crianças: o que não interessava aos homens. Aquele mundo controlado e limitado à própria casa estava aos pés das mulheres. Isso e nada mais. E graças às desgraçadas feministas as mulheres hoje podem dizer que seu mundo é muito maior e que elas são senhoras justo do que mais importa: elas mesmas!
Mas essa mulher que se diz moderna prefere um suposto controle medíocre sobre os homens – na verdade, ela se consola no fingimento de que escolher a roupa que ele usa ou o que ele vai comer no jantar é controle sobre a própria vida dele. E é exatamente disso que essa mulher precisa: frustrada e solitária, ela se agarra desesperadamente a uma ilusão de segurança e controle sobre a sua vida infeliz e a vida do “seu” homem. Por isso ela se angustia com os deveres fora de casa e com a solteirice aguda, por uma insegurança estrutural (alimentada pelo machismo que essa mesma mulher aplaude), e atira as pedras da culpa às feministas. Essas, sim, querida, pensaram em você: graças a elas, você e outras mulheres podem ter suporte psicossocial especializado em compreender e ajudar mulheres que têm medo de competir com o “macharedo” e se sentem frágeis por isso.
Indignada, eu vejo essa mulher culpar o feminismo pelos seus relacionamentos instáveis e os sacrifícios pela beleza. E, ainda, culpa justo a nós, feministas, pela correria do seu dia, seus riscos, suas cobranças e todos os problemas que cercam a sua vida. Mulher frustrada e ignorante, você não percebe que somos nós, as feministas que você odeia e desqualifica, que lutamos pelos salários iguais, pelo fim da ditadura da beleza? Aliás, ditadura essa pela qual sua avó também sofria, enrolando ou alisando os cabelos, metida em roupas quentes e desconfortáveis para esconder o corpo do povo e mantê-lo sempre saudável e bonito para o seu marido, não para ela mesma, pois se o mundo estava aos pés dela, ela estava aos pés dele. Nós lutamos pela redução da jornada de trabalho para que eles(as) tenham tempo para os(as) filhos(as); a maioria de nós também luta contra esse capitalismo selvagem e desumano. Mas aquilo a que você nos imputa a culpa, criar a oportunidade e espaço no mercado de trabalho para as mulheres, ao contrário do capitalismo, da ditadura da beleza e da violência urbana, não lhe é obrigado. Criamos a OPORTUNIDADE para mulheres de classe média (porque as mulheres pobres sempre trabalharam, independentemente de emancipação feminina) trabalharem fora de casa e se tornarem independentes de seus pais e maridos.
Mas se você, “mulher moderna”, quer ficar em casa, esperando cheirosa e com o jantar pronto, um homem chegar para lhe dar o dinheiro dele, nós, feministas, reprovamos a sua conduta, mas fomos nós que tornamos isso uma opção, e não uma falta de opção. Se você quer voltar a ser dependente, semi-incapaz, maltratada; se quer fingir que seu casamento está bem por cinqüenta anos ainda que você não tenha mais sexualidade própria ou mesmo desejo (mais uma opção que oferecemos), ao invés de ser casada ou solteira por livre e consciente opção; se você quer achar que voltar no tempo vai fazer com que você receba flores e encontre apenas homens seguros e congelados em papéis pré-determinados; se você realmente acha que nasceu para servir, então tudo bem. Pode servir, pode sonhar com um passado bucólico que nunca existiu, pode se prender a um relacionamento que só você finge que não é falido, pode agir como dependente e semi-incapaz. Nós, feministas, lhe damos essa opção. E, a todas as mulheres que desejam a liberdade de seus corpos, de suas mentes, de seus sentimentos e de suas almas, demos outra opção também: opor-se a tudo isso e clamar pelos seus direitos.
É claro que para você escrever um e-mail cretino como esse e publicá-lo pela internet antes de ir para o seu trabalho, muitas mulheres lutam e tiveram que lutar para que você tivesse um trabalho, para que você tivesse o direito de se expressar livremente. Tudo isso, só para você destilar ignorância e preconceito, culpando um movimento histórico e fundamental por suas frustrações pessoais – sabe quem está por trás da igualdade de gêneros e praticamente todas as conquistas para grupos vulneráveis na Constituição? E do ECA? E do Estatuto do Idoso? E de boa parte das políticas sociais? Se acha que fomos nós, feministas, acertou!
São dez e meia, agora que termino esse texto entre as aulas. Meu coração não bate mais devagar, nem o meu cenho se desfranziu. O que dói, no final das contas, não é a frustração de uma mulher e sua necessidade de encontrar culpados pelos problemas de sua vida. O que dói é ouvir, em meio a um sorriso debochado e amarelo, que esse bilhete não passou de uma brincadeira.
Sabe, eu já cansei de ouvir sobre a radicalidade e a brutalidade das feministas. Não é que sejamos brutais ou radicais. Mas é que às vezes, para não dizer quase sempre, reforçam de maneira brutal (e aqui, sim, cabe essa palavra, em todos os seus significados e intensidades) o preconceito sobre nosso trabalho, desqualificando uma luta secular e visceral - afinal de contas, como filhas do machismo, lutar contra o nosso pai é como cortar da própria carne. E só às vezes, dentre tantas situações cotidianas, a gente sai do sério e reage contra essa ignorância e esse reacionarismo podre e enferrujado.
Que essa “mulher moderna” saiba que toleramos o seu e-mail. O que não toleramos são as brincadeiras em cima dele, quem repassa conscientemente essas barbaridades a título de diversão. A “brincadeira” é a forma mais covarde de atacar alguém, porque é acompanhada de uma desqualificação intrínseca e blindada contra críticas, já que não deveria ser levada a sério. Que esses covardes, que se escondem atrás das brincadeiras, assumam, discutam e lutem por sua posição chauvinista, assim como nós damos a cara a bater diariamente.
A última aula, não menos verborrágica, já começou e eu estou lutando para terminar de escrever. Com o coração pesado e os olhos cuspindo ódio, eu tento respirar fundo e sorrir bom humor.
Perdoai-os Beauvoir, eles não sabem o que fazem.
Eu publiquei esse texto no mural da faculdade com um alívio enorme de quem grita para o mundo todas as suas angústias. Não é minha melhor peça, mas me trouxe a certeza, lá do fundo do meu sol-saturno, que eu faço o meu melhor quando eu faço com paixão. E que eu nunca devia ter duvidado disso.