2012: Round 1, FIGHT!

Então o ano de 2012 começou com o pé direito: casa nova e linda (desculpa aí, continuo babando no meu apê), carro legal, junto do marido, cachorro adotado, trabalho voluntário logo na segunda semana. Eu andava meio calada porque vocês já sabem a história do gato escaldado, a pessoa aqui super ressabiada não queria que as conquistas se desfizessem em frente dos meus olhos enquanto eu celebrava. Então, finalmente, deixa eu contar um pouco do que tem sido esse último mês.

As despedidas foram menos tristes do que eu imaginava. Quando a gente luta de verdade por uma coisa, tudo tem gosto de conquista, então dizer até logo (e não adeus) não é tão difícil. E eu tenho consciência de que vim pra lutar por um sonho, e estou aqui honrando tudo que eu conquistei, principalmente minhas próprias certezas, que foi uma das coisas mais difíceis para mim.

Quando a gente planeja tudo e sabe exatamente porque dá cada passo, as coisas se tornam mais fáceis. Ou menos complicadas. Parece lógico, né? Mas não é. Mesmo quando a gente tem tudo planejado, é só a vida questionar um tijolinho que o castelo pode cair todo. Dessa vez, cada porrada que vem, sinto que a estrutura já não se abala – ainda que porradas sempre doem.

Chegar foi difícil, e cada dia acordar e saber que eu estou vivendo uma vida nova, sem um futuro certo. Mas então eu criei minha rotina dentro de minha vida aqui, e surpreendentemente, as coisas começaram a ter um resultado muito rápido. Mas eu tenho plena consciência de que na verdade os resultados pareceram rápidos porque tudo começou há muitos meses, e com muito esforço de todos os lados. Só que a verdade é que eu, mais uma vez escaldada, não esperava nem resultados.

Uma semana distribuindo currículos pela internet, semana passada recebi uma ligação e comecei meu trabalho voluntário no Programa de Equidad de Género del Poder Judicial de la Nación. É um lugar pequeno, com menos de 15 pessoas trabalhando, mas umas mulheres com uma energia incrível! A verdade é que o trabalho em si não é muito interessante, mas o ambiente de trabalho é tão divertido e eu rio tanto todos os dias que não  sinto nem o tempo passar! Só volto pra casa porque dá 17h  e o trabalho já fica deserto!

Ontem também recebi uma ligação que não quero festejar muito até assinar o contrato, mas parece que finalmente tenho um trabalho de verdade! É no Ministério do Trabalho, pra ser assessora do segundo escalão e fazer tudo que eu sempre quis: trabalhar com políticas públicas, gênero,inclusão social,  me meter com política, descobrir se é isso mesmo que eu amo. O salário é legal, mas não é o máximo, e é prestação de serviço, não é trabalho com carteira assinada, o que significa que não terei nenhum benefício. Mas é um trabalho remunerado, no que eu quero, que vai me dar experiência, me fazer conhecer muita gente nova e ainda por cima vai mudar meu status migratório, permitindo que eu procure trabalho como qualquer mexicana (esperemos que isso aconteça, pelo menos).

De resto, estou aqui, bem. Não digo que feliz, porque pra mim estar feliz inclui dois ingredientes que me faltam, 1) estar com as pessoas que amo, 2) estar realizada. Mas estou muito bem, aprendendo a amar uma cadelinha fofa (adoção é uma coisa incrível!!!), tocando minha vida, fazendo meu relacionamento funcionar e lutando todos os dias pelo trabalho dos meus sonhos. E continuo cabendo em minha própria pele, o que é mais importante.

Falta também encontrar aquele pedaço da minha vida que se perdeu no caminho, o acreditar. Mas esse é um problema cuja solução ainda não está muito clara pra mim, ao contrário de todos os outros…

Depressão, o tabu

Finalmente é hora de escrever esse post e, sem saber, eu esperei muito tempo por ele. Eu quero dividir isso não mais porque eu sinto a necessidade de desabafar, mas, sim, a necessidade de compartilhar uma experiência que pode ser útil para outras pessoas e para mim mesma, no futuro.

Durante muito tempo eu calei, e esse blog também, porque a depressão costuma ser assim mesmo. Primeiro é um falatório desgraçado de como as coisas estão ruins. Nesse estágio, as coisas ainda não estão tão ruins, mesmo que a gente diga que estão. A gente diz que não acredita mais em nada, mas se estamos falando isso é porque acreditamos, porque ainda nos importamos o suficiente para falar. É uma forma de pedido de socorro, é uma forma de forçar as pessoas a nos dizerem “não é verdade, vai ficar tudo bem”. Não, não vai ficar tudo bem, e eu acho cruel quando as pessoas dizem isso, achando que ajudam. Quem está deprimido quer até acreditar que vai ficar tudo bem, mas na verdade as coisas só ficam bem mesmo depois que a gente enfrenta. E dizer “vai ficar tudo bem” é fuga, consolo, não é confrontação.

Então pouco a pouco a gente vai descobrindo que realmente não vai ficar tudo bem, vai perdendo a esperança, alguns dias são insuportáveis. Mas aí tem uns poucos dias que valem a pena, e aí a gente acha que todos os problemas são pontuais, e começa a encontrar culpados para tudo. Depois, não só alguns dias, mas a maior parte deles. E começamos a acreditar que somos nós, na verdade, os culpados de todas as desgraças de nossas vidas. Mas ainda não é essa a pior parte. A gente só começa a chegar perto do fundo do poço quando quase todos os dias são insuportáveis, a gente só empurra com a barriga. Começa a pensar: só preciso superar mais um dia, mais umas horas e eu durmo de novo e vai haver um novo dia. Todo nosso esforço está concentrado em parecer normal, não demonstrar que estamos devastados por dentro, não machucar ainda mais as pessoas em volta. Sim, porque começamos a achar que não só somos os culpados por nossas desgraças como pela infelicidade das pessoas que nos cercam. E que o mundo seria um lugar melhor sem a gente.

Não dá pra explicar o que é o fundo do poço, só quem realmente esteve lá entenderia. Mas é um ciclo que não parece ter fim: você fica cara a cara com o problema, gasta toda sua energia em não desistir de tudo e sobreviver, fingindo para os outros que está bem. Aí não tem mais energia para enfrentar o problema quando é exposto a ele e tudo continua numa espiral negativa, que vai te puxando para baixo como um redemoinho. E quando você vê, não tem ideia de como chegou ali, quer sair, mas não sabe como. E isso reforça a sua descrença nas coisas…

Eu não falava da depressão porque eu achava que eu pioraria tudo se eu falasse. O problema é que as pessoas lidam mais fácil com doenças físicas do que com as psiquiátricas, e, sim, depressão é uma doença. Nossos neurotransmissores, que basicamente são o meio de comunicação entre os neurônios, não funcionam bem, e às vezes é necessário usar medicamentos – enquanto se busca uma solução definitiva para aquela desordem, normalmente através de psicoterapia. Quando alguém tem depressão, não precisa ter medo, evitar o assunto, achar que qualquer coisa que você disser a pessoa vai se matar. Nada é pior do que fingir que aquilo não existe, porque esse comportamento vai alimentar a culpa e a solidão que o deprimido sente. Nem é coisa “da cabeça dele”. Ninguém se deprime porque quer, como ninguém tem um câncer por que quer – ainda que a opção de tratar a doença seja de cada um. Depressão também não é tristeza. É uma doença e, como tal, deve ser tratada para recuperar a saúde da pessoa.

Se você é amigo ou parente de um deprimido, tenha a sensibilidade de abordar o tema, mas aberto para escutar e oferecer soluções. Se não souber o que dizer, pode ficar calado, mas não fique omisso. Escreva, ou entregue textos que podem ajudar a pessoa, encaminhe a pessoa para ajuda profissional, avise outras pessoas que podem ajudar. E, acima de tudo, mostre que você realmente ama, se importa com a pessoa e que está ali para ajudá-la.

Eu fiz quatro meses de terapia e, feliz, vou continuar fazendo, apesar de já poder me considerar “curada”. Foi o melhor investimento que eu fiz na minha saúde, desde que eu me lembro. Vou continuar na terapia porque as chances de ter novos episódios de depressão aumentam à medida em que mais episódios aconteceram na vida da pessoa, e vou me expor a novas situações de grande desafio. Então, até ter uma estabilidade na vida que dê suporte à minha estabilidade emocional eu quero continuar a terapia. Não acho que é o único caminho, mas para mim foi extremamente rápido e eficiente, eu pude acompanhar minha evolução semana a semana.

Não, não é fácil sair dessa. Mas é muito mais fácil sair do que ficar. A gente não tem ideia de quanto, até tentar. Mas não tentar por fazer. Sim, porque no fundo, a gente sabe o que dá e o que não dá certo fazer, então não existe tentar nessas horas. Por exemplo, a gente sabe que esconder os monstros dentro do armário ou jogar a poeira pra debaixo do tapete não é tentar. Eu não sei vocês, mas eu não consigo me enganar, por mais que eu tente. Meus demônios são tão fortes quanto eu, porque meus demônios são eu. A solução é enfrentá-los e descobrir que, na verdade, eles não são demônios. São apenas uma parte de você que não soube lidar com alguma situação de sofrimento.

Se dê a oportunidade de enfrentar essa situação. Você só tem a ganhar. Sabedoria, autoconhecimento, força, paz de espírito, caráter, estabilidade emocional, coragem, amor próprio, capacidade de perdoar e de se perdoar… Enfim, a gente muda muito quando supera essa barreira. Mas o compromisso com a cura precisa ser total. Pense em todas as coisas, todos os momentos de alegria e de entrega que você perdeu por causa da depressão. Ainda que você não acredite que você vai melhorar, e eu também não acreditava, se dê essa oportunidade de procurar ajuda (mas ajuda verdadeira, nada de coisas que você sabe que não estão funcionando). E pode pedir colo, mas jamais peça a alguém que diga que vai ficar tudo bem. Peça que a pessoa te dê a mão e te ajude a enfrentar as decisões mais difíceis de sua vida. Como enfrentar seus medos e, finalmente, aceitar a mudança que já existe.

Eu superei a depressão com muito apoio e amor de meu companheiro, que foi fundamental e também teve orientação psicológica, e de minha família, que entendeu todas as minhas necessidades. Aliás, para quem está ajudando uma pessoa deprimida a psicoterapia também é muito útil para compreender como ajudar de verdade. Também ajudou muito ter feito as pazes com a saúde como um todo, cuidar o meu corpo fazendo atividades físicas e mudando minha alimentação. E, claro, se todo o processo não tivesse sido orientado por uma profissional fantástica eu não teria chegado tão cedo onde cheguei. Escolhi a terapia comportamental, que trouxe resultados muito rápidos, e recomendo muitíssimo. Também me recomendaram muito a terapia cognitiva. Particularmente acho que a psicanálise não ajuda tanto em situações limítrofes como a depressão. Já fiz um ano de psicanálise e acho que é um ótimo meio para autoconhecimento, mas apenas quando a saúde mental está em perfeito estado, porque não tem um foco específico, e acho que pode até piorar uma depressão.

Enfim, a depressão não precisa nem deve ser um bicho papão. Quanto mais se evita, disfarça ou se alonga, pior ela fica, como todos os medos. Eu sei que também, como todos os medos, ela é temida por ser desconhecida. Mas é justamente por isso que temos que falar dela, para conhecer, evitar e curar. Quem tem psicólogo e psiquiatra é quem se preocupa com a saúde, então deve ser uma pessoa admirada, e não discriminada – apesar de que eu desconfio de quem passa a vida inteira tomando ansiolítico/antidepressivo, porque é paliativo, não é cura.

Agora eu posso dizer com gosto: eu tive depressão, sim, tive a coragem de enfrentá-la, e hoje me sinto construindo minha felicidade, acreditando no meu futuro e pronta para novos desafios.

Admirável novo mundo velho

Acho que nunca deixarei de ser feminista porque acredito que a luta contra o sexismo é diária. Mas faz tanto tempo que eu não participo de qualquer evento feminista que tinha até esquecido o 25 de novembro, até Duda lembrar (obrigada!). Então minha sexta feira continuou assim, normal, comemorando com uma felicidadezinha calada toda vez que eu via a mídia falar do tema – e falou muito! Mas o dia continuava bem normal até eu, meia noite, escutar em rede nacional, na Band News, uma citação de Kollontai. Fiquei paralisada pela força do momento.

Ali estava eu, tantos anos depois de GEGE e discussões e leituras e esperanças e desesperanças feministas, ouvindo em REDE NACIONAL uma citação de uma FEMINISTA BOLCHEVIQUE!!! Não sei se alguém consegue conceber o quanto isso é fantástico… Pra mim é algo como se a gente pudesse participar de uma convenção de RPG só de mulheres, tipo, o que a gente nunca imagina que vai acontecer na vida. Mas quando acontece, descobrimos que o impossível é mais próximo do que podemos imaginar.

Aí minha noite se transformou. E eu comecei a pensar o que mudou de 2005 pra cá. Temos a Lei Maria da Penha, um Ministério de verdade, uma novela das 8 (!!!) falando de violência doméstica abertamente, a criação da UN Women e até… uma Presidenta!!! Sim, eu já sabia e já esperava todas essas coisas. Mas a citação de Kollontai em rede nacional me fez finalmente entender que é tudo de verdade, a mudança é real, os esforços não são em vão.

Eu sempre soube que, uma vez dada a partida na Revolução Feminina, a simples mudança de gerações faria o trabalho de, um dia, alcançar a equidade, com a condição de que ninguém desse um passo atrás. A ideia é simples: nenhuma mulher vai aceitar retroceder nos seus direitos e tem grandes incentivos para buscar novos. Então cada geração iria mais longe, até o dia em que seríamos todos iguais. Mas, de repente, eu me dei conta de que aquele velho clichê é verdadeiro, pelo menos por hoje: “o futuro é agora”.

Talvez se eu não fosse diariamente bombardeada com doses cavalares de sexismo só de andar nas ruas eu tivesse me dado conta da beleza do momento muito antes. Não, eu não acho que estamos nem perto de chegar no objetivo. O abismo que existe entre ser homem e ser mulher nesse mundo ainda está a muitas décadas (sendo otimista) de se fechar. Mas dias como ontem me fazem sentir que eu vou deixar para o meu filho um mundo um pouco menos sexista do que aquele em que eu vivo hoje. E me dá muito orgulho saber que pude fazer parte ativamente dessa mudança.

Diretamente de 1917, dá muito gosto dizer: que mundo mais moderno, viu?

 

Canteiros

(Raimundo Fagner / Cecília Meireles)

Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até manhã, cedo, claro, feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida

Bolo mexido demais desanda

E o silêncio continua. De qualquer forma, me sinto meio que numa obrigação moral de dar satisfação… acho que ao blog em si, como se fosse um indivíduo, não uma série de zeros de uns, como se fosse um reflexo de mim mesma. Até porque, se eu quisesse dar satisfação para quem lê o blog eu simplesmente o faria pessoalmente, como o tenho feito – ou deixado de fazer.

Essa semana, depois de escutar por tantos meses que eu não me afobe, comecei a me cansar de escutar que comece a me preocupar. Eu sinto muito, queridos. Eu não vou me afobar, não vou me preocupar, mas também não vou relaxar. Eu não vou fazer nada, nem vou fazer tudo, eu não vou fazer qualquer coisa. E atentem para o fato de que nada, tudo e qualquer coisa tem mais significados do que se lê à primeira vista. Justamente por prestar atenção para as entrelinhas de minha vida, eu preciso de tempo, silêncio e distância. Talvez até de solidão. Quero isolar as variáveis antes de dar o resultado para minha função. Não quero que me arrumem funções por tê-las, quero que se respeite meu tempo, seja mais acelerado ou mais lento do que o seu. Conselhos são bem vindos, mas pense na conveniência deles antes de distribui-los gratuitamente – pra quem vive em reflexão, as novidades definitivamente não são o senso comum, a cartilha, a linha traçada.

Eu não espero que você entenda ou que goste do fato de que eu caminhei esse caminho mais só do que jamais estive porque não pude contar nem comigo mesma. E que eu preciso chegar até o final desse trecho desse mesmo jeito, porque ainda não consegui acertar o meu passo e é difícil me acompanhar nesse ritmo desencontrado.  Quando a noite vire dia e eu não tenha mais que me guiar pelas estrelas ou pelos rastros no chão, vocês vão saber. Até lá, respeite o caminho de quem viaja sem mapa. Se precisar de ajuda, você sabe  que eu vou parar para pedir informação.

Que nem jiló

Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira

Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim,
Que vivo doido a sofrer

Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz roer
E amarga qui nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar
Saudade, o meu remédio é cantar

 

E como amarga, viu? Pegava 10 conexões fácil…

 

Sem querer querendo

Domingo, por uma dessas ironias do destino, estávamos no carro zapeando a rádio e encontramos do nada um programa só de música brasileira. Depois de muita música nordestina (diliça!), lá pelas tantas começou essa aí embaixo, e tudo começou a fazer sentido.

 

Quase Sem Querer

Legião Urbana

Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Renato Rocha

 

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranqüilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito;
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

 

O silêncio das estrelas

Lenine já apareceu por aqui várias vezes e vai continuar aparecendo, porque o homem sabe do que fala. Sempre.

O Silêncio das Estrelas (MTV Acústico)

O Silêncio das Estrelas

Composição: Lenine / Dudu Falcão

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal?

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais, de mais…
Afinal, feito estrelas que brilham em paz, em paz…

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais…

Da frigideira pro fogo

Eu sei que tem muita gente sem notícias minhas há muito, dessas notícias que a gente quer saber mesmo, não conversa de elevador. Faço esse post, quebrando meu silêncio, porque não me sinto na obrigação de “dar satisfação” (não sei porque a gente considera isso ruim, dar satisfação é tão bom, né?) de minha vida, mas porque, assim como eu gostaria de saber realmente como estão as pessoas que eu amo, também sinto necessidade de apertar mais os meus laços falando de mim.

Ontem, finalmente e graças ao que for (diga Deus, dinheiro, sorte, força de vontade, qualquer coisa, já não sei no que acreditar), eu cheguei no México, que é o mais próximo que tenho de uma “casa” fora do Brasil. Deixei a Espanha com o alívio de quem deixa uma trincheira, passando por problemas até o último momento. Eu podia contar toda a minha via crucis nesse país, até o último minuto que deixei ele, mas eu decidi que não quero falar mais da Espanha até restabelecer meu ego ferido, meu orgulho pisoteado por esse país de merda.

Basicamente, eis a explicação: os espanhóis (no agregado, há importantes exceções pra confirmar essa regra) são bárbaros, e podem ter infraestrutura de primeiro mundo, mas na verdade o país é de quinta. Claro que eu já sabia disso porque não dá pra confiar em um povo que tem como “esporte” nacional um espetáculo sangrento para torturar e matar lindos e saudáveis animais, que come linguiça com sangre cru, que tem até três horas de sesta, que tem mais de dois feriados por mês, que pilhou, estuprou e roubou quase um continente inteiro, que usa palavrão como vírgula, e que tem bares cheios até às cinco da manhã de uma segunda-feira. Mas eu imaginei que pelo menos o conceito de respeito era universal, ainda que varie muito quem merece o respeito entre as sociedades. Eu estava enganada. Toda a corrupção e os problemas institucionais da América Hispânica foram herdados da “pátria-mãe” (ou melhor, pátria-filha-da-mãe), e isso é muito claro porque, quanto às relações pessoais, na América Latina como um todo existe respeito. Na Espanha, supostamente existe hierarquia, lei e dizem até que existe ordem. Mas respeito eu NUNCA vi lá.

A única coisa que realmente vai fazer falta é o chocolate quente. O resto, por mim, afunda com a crise e o terrorismo. Aliás, duas coisas merecidas. Como um povo que há 500 anos tinha um império agora pede dinheiro à Alemanha, que nessa mesma época era uma apanhado de tribos bárbaras? Com MUITA incompetência e corrupção. O terrorismo é fácil, né? Ninguém quer ser espanhol, todo mundo quer se separar. E quanto mais você se distancia de Madrid e ultrapassa os limites das duas “Castillas”, você começa a ver mais indícios de civilização, gente simpática, bom atendimento – ainda que com a indefectível marca dos espanhóis. Não é estranho que todo o norte do país seja muito mais rico que o resto (comprovei pessoalmente na Galicia e na Cataluña, e pelo que escutei e li, todas as outras comunidades mais ao norte, as mais separatistas, são mais desenvolvidas).

Não voltaria na Espanha nem por turismo, nem por convite, nem por nada. Esse povo me tirou o dinheiro, a paciência, o orgulho, a alegria, o sucesso, a auto-estima, o suor, o juízo e até a alma. Desisti de acreditar nas pessoas depois que passei pela Espanha. Desisti de acreditar na felicidade, no sucesso, na inteligência, na lógica, na vida. Pra voltar a acreditar em alguma coisa sei que vou precisar que o mundo me convença de novo que coisas boas existem. Até lá, meu cérebro só está programado para uma coisa: encontrar um trabalho e passar por cima do que estiver no caminho. Depois eu resolvo tudo mais.

E eis a razão de estar em México. Eu quero trabalhar com políticas públicas, ter algum tipo de realização profissional é a única coisa que sei que ainda tenho, além de minha família. Como no Brasil o acesso a trabalhos desse tipo depende de contato – nem por concurso gera – e no México posso procurar trabalho no setor público distribuindo currículo, aqui estou. Já me desiludi com organizações internacionais e terceiro setor, transparência é propriedade química, não institucional. Sei, porque vi, que entrar nessas organizações é questão de tamanho do seu peixe, não do seu currículo. Então aqui estou, tentando a sorte (ha ha ha, que piada tentar a sorte, como se isso existisse, só funciona porque sou brasileira e não desisto nunca ¬¬) até não ter mais nenhuma opção e voltar pro BR pra estudar pra OAB e pra concurso com meu rabinho entre as pernas e com a certeza de que realização profissional é coisa pra uns poucos escolhidos e para voluntários. Isso não tem nada a ver com esforço, capacidade, inteligência, experiência. Talvez no setor privado, o qual não me interessa a priori. Mas na hora que faltar o de comer, a gente faz o que tiver que fazer, né?

Sonho é só pra quem pode dormir.

Tum tum tum tum tum…

Ocupado. Assim está o meu tempo, o meu espírito, a minha cabeça. E a razão do meu silêncio é que eu estou tão delicada como um trator esses dias e as sensibilidades podem ser feridas se eu começar a passar meu rolo compressor. A cada dia eu acordo mais desesperada porque cada euro que eu gasto não aparece de novo na minha conta no início do mês, é que nem jogar um jogo sem “continue”, só vejo o game over na minha frente. E quanto menos dinheiro eu tenho, mais a vontade de comprar me ataca, como se meu ego estivesse protestando contra essa situação.

No final das contas, we’re living in a material world and I am a material girl, e amor, perspectivas e sonhos não enchem o prato nem o bolso de ninguém. E eu posso ter tudo que nego diz que é necessário pra alcançar a felicidade, mas pra mim não existe felicidade certa sem estabilidade na vida.

Agora eu vou indo antes que comecem as ofensas às sensibilidades alheias. Minha paciência acabou antes do meu prazo pra encontrar trabalho.

PS: nem tudo é uma merda, porque pela primeira vez desde… ah, já esqueci quando, uma coisa que plantei realmente foi colhida: mês que vem vou apresentar um artigo numa conferência lá em Barcelona, mas isso também significa ficar algumas centenas de euros mais pobre, e sem ter a mínima garantia – e a essa altura do campeonato, esperanças – de que isso vá dar em alguma coisa. É, retiro o que eu disse. Tudo é uma merda, sim. Vou parar de verdade que já toh sentindo umas sensibilidades feridas por aí – e não é a minha, que esses luxos eu já perdi há tempo, viu?