A inutilidade dá mais trabalho que o trabalho

Eram 10 da noite quando me pediram pra eu vir trabalhar as 7 da matina pra fazer ajudar a fazer o trabalho de uma colega, porque não tinha dado tempo de terminar antes do prazo. Observe-se que era um trabalho equivalente ao que eu fiz na metade da tarde de sexta, e que ela tinha em mãos desde a quinta. Então, como acabei minhas tarefas rapidinho (depois disso, ainda na sexta entreguei mais outro trabalho, e na segunda mais outro), o chefe achou de bom tom me dar o trabalho dos outros também. Porque tem toda lógica do mundo, né? Os maus trabalhadores voce alivia, já que eles são ruins mesmo e não produzem, e os bons, voce pune e enche de trabalho.

Aí o que eu faco? Desisto. Me faco de besta. Hoje eu me dei conta de que nao tenho mais pra onde fugir, lá vem mais outra grande decisão na minha vida. Me adaptar ou seguir a luta?

Ontem, pra colocar uma cereja bem grande em cima desse bolo, apareceu uma proposta de fazer um trabalho para um partido, muito bem pago, principalmente em contatos. Só tenho que ajudar a escrever um livro elogiando o neoliberalismo. Nesses tempos, em que o salário não chega e a gente tá atolado em dívidas, a primeira coisa que eu pensei foi “pagando bem, que mal tem?”. Imediatamente, pude ver todas as minhas outras Samiras fazendo uma sonora vaia em minha cabeca. Não foi para isso que eu vim. Ou foi?

O que é isso nessa vida que a gente chama de realizacão profissional e passa sei lá quanto tempo correndo atrás? Por que é tão importante pra mim, se é justamente a primeira coisa que as pessoas costumam desistir, já no vestibular? É isso que chamam de vocacão? Ou é isso que chamam de frescura? Quando é que a ética tem um preco? A ideologia? O sonho? Quando saber o que é realizável?

Ao mesmo tempo, eu penso que eu poderia chegar lá, exatamente aonde eu quero – é só descobrir o que eu quero. Eu não quero elogiar o neoliberalismo quando eu acredito que ele tem problemas estruturais (aliás, a economia tem problemas estruturais, e se chamam supostos). Eu não quero trabalhar em um ambiente onde as pessoas descartam minhas ideias como se não tivessem nenhum valor, onde meu conhecimento só serve quando os chefes querem se gabar da equipe, onde não há certo, só existe o que a chefa gosta e tudo mais é errado.

Eu também não quero me adaptar, e um dia descobrir que eu sou uma funcionária pública ineficiente, quando eu atualmente acredito mais na eficiencia que em qualquer deus – e, de verdade, eu sinto muito, mas nao consigo mais evitar. Eu não quero levantar da minha cama, as 7 ou as 10 da manha, para trabalhar para alguém. Eu quero trabalhar para a sociedade. E quando colocar minha cabeca no travesseiro, sejam 21h30 ou 3h da matina, quero fechar os olhos e dormir. Não quero passar a noite inteira me odiando e odiando todas as outras pessoas que cometem a injustica de receber dinheiro público todos os meses para… que mesmo?

Quero que escutem as minhas ideias, mas nao quero ser só ideias, quero acão. Mas parece que o ser humano é essa criatura inepta por natureza, e nunca encontro um lugar, nao sem defeitos, mas pelo menos com uma moral respeitável.

Podem me dizer que eu estou reclamando de barriga cheia. Não se preocupem, eu valorizo muito minha formacão e meu trabalho. Valorizo muito cada uma das pessoas que vejo na vida. Exatamente por isso eu acho um desperdício ver todo mundo ficando doente, envelhecendo e morrendo detrás de uma mesa.

Eu sempre gostei mais de estar em pé.

PS: so sorry, quando uso teclado espanhol não tem cedilha.

Estrangeirizando

Quando ando pelas ruas aqui, fico me perguntando se as pessoas me vêem com a mesma cara que eu via os gringos quando eu passeava pela Vitória ou pela Barra. Eu sempre me achei esquisita e deslocada, em qualquer lugar que estivesse (exceto os meses de glória na França, mas deixemos o sonho no seu devido lugar), e a verdade é que nunca me acostumei a ser “low profile”, simplesmente não é da minha natureza. Mas também eu nunca esperei chamar a atenção por motivos outros que não fossem a forma esquisita como me visto (em relação aos ambientes que frequento), meu gosto por coisas inesperadas, ou meus excessos de opiniões.

Mas aqui no México eu sou a estrangeira. Às vezes gringa (aqui gringo é só americano), às vezes européia, ninguém acha que eu sou latinoamericana, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda de Salvador. Aliás, quase ninguém sabe que Salvador existe, só uns intelectuais mesmo. E a maior parte também nem sabe que Brasília existe, e acha que a capital do Brasil é Rio de Janeiro. Se surpreendem porque na hora de comer eu prefiro tacos a pizza (como fazer alguém entender que a pizza brasileira é a melhor do mundo?), que eu não danço só porque sou brasileira, que não vejo a mínima graça em futebol, e, o mais impressionante, que tendo conhecido outros países mais desenvolvidos, eu decidi ficar justamente aqui.

O mais esquisito pra mim é realmente chamar atenção por minha aparência. Veja bem, eu realmente não me visto como as mexicanas, principalmente como as defeñas (quem é de DF), que vivem só com tênis, botas, moletom, suéteres, jeans, leggings e jaquetas. Vestidos, só de noite, e olhe lá. Nada de cinturas marcadas, de decotes, de roupas curtas. Eu, não. Me visto como sempre me vesti e como vocês sabem, tênis, legging e moletom pra mim é pra usar na academia. Mas então eu, com minha roupa baratésima, andando por um dos bairros mais caros e tradicionais da Cidade do México, simplesmente paro o trânsito. Literalmente. Em breve falarei da loucura viária nessa cidade, mas um fato que adianto é que para atravessar a rua, ou ela tá vazia, ou você reza e se joga na frente dos carros, na esperança de que eles pelo menos reduzam antes de te atropelar. Mas as pessoas param pra eu passar!!! Vou nas lojas e me tratam a pão de ló, me oferecem de tudo. Ando pelas ruas e as pessoas param pra me olhar, coisa que aqui, como em Sampa, não existe porque ninguém tem tempo pra isso. Nego às vezes nem me pede documento pra entrar nos lugares (coisa obrigatória em todos os edifícios públicos), uma vez pediram até pro segurança me acompanhar até a porta da pessoa que fui visitar!!!

Acho que antes isso não acontecia porque eu sempre andava meio embarangada, sem maquiagem, tentava me vestir como as mexicanas, pra não chamar atenção, e acabava que não parecia nada, nem eu, nem os outros. Agora eu sou mais eu e… os outros também são mais eu! Eu tinha que dividir isso porque é a primeira vez na minha vida que eu sinto que a aparência realmente importa. O auge disso foi quando fui conhecer a Sephora daqui, e estavam fazendo maquiagem grátis (com todas aquelas marcas caras que você tem certeza que nunca vai usar). Claro, eu e Leslie, minha cunhada, nos jogamos de cum força!!! Além do cara ter levado tipo 1 hora pra fazer uma maquiagem super simples (a de Les levou 10 min), a pessoa que tava fazendo a cobertura do evento tirou mil fotos minhas e no final até a caixa me pediu pra tirar uma foto minha!!! Pense numa coisa super esquisita???

Claro, é bom aproveitar o que a vida oferece, e como estou aproveitando!!! A verdade é que estou acostumada a ser um peixe fora d’água. Mas é a primeira vez na minha vida que isso parece ser uma vantagem, não um problema. E quem diria que um dia eu ia dizer: sair de casa sem maquiagem e embarangada? Nunca mais. =)

Quero ser grande

Ontem rolou o fight aqui em casa por causa das contas. David vivia sozinho com o salário dele, e agora que eu toh aqui também ele não entende porque as contas não fecham mais como antes. Veja bem, eu entendo que as pessoas digam que onde come um come dois, mas se a gente vai num restaurante, paga por dois, entra no metrô e também paga por dois, gasta água, luz e gás (aqui a água quente é a gás) por dois, sem falar nos “novos” gastos. Tipo, chegou a primeira conta de telefone, compramos coisas para a casa (qnd ele tava sozinho era só uma mesa e um colchão na casa inteira), eu não como mais tão mal quanto ele, e sempre compro muitas frutas e verduras, o que é bem mais caro que miojo, etc. No final das contas ele entendeu que não dá pra ter o mesmo nível de vida que tinha antes, e que um dia vamos ter um até melhor, mas que até lá, a gente vai ter que ralar um bocado.

Mas o que ele me explicou, que eu de verdade entendo, porque já escutei isso de outras pessoas, é que é “anormal” querer tanta responsabilidade, como eu quero. Que as pessoas querem crescer aos poucos, pagar as contas aos poucos, jogar tudo no crédito e acreditar que pode ter um IPhone no lugar de um AiFone. Que não querem deixar de sair com os amigos por falta de dinheiro. Mas veja, todo mundo pode ter um IPhone e sair com os amigos. É tudo questão de escolhas. Compre a zorra do IPhone, mas depois não reclame se não sobrar dinheiro pra pagar a geladeira. Pelo menos você vai poder mandar uma mensagem pelo Whatsapp pra seu amigo pra pedir espaço na geladeira dele. Nem precisa deixar de sair com os amigos. O que é que custa, durante uns meses, deixar de ir naquelas boates caras, onde cada drinque é mais de 15 reais (e equivalente em pesos mexicanos), se você pode rachar a cerveja com a galera no sofá de sua casa?

Eu sei, em alguns aspectos eu sou a louca que quer crescer antes da hora. Mas observe minha situação. Durante 3 anos de minha vida não passei mais de 6 meses na mesma casa. Minha vida tinha que caber em uma mala, eu vivia em residência universitária, apês divididos, ou de meus pais ou até de pais alheios. Faz três anos eu não tenho o meu espaço, não tenho a liberdade de comprar uma futilidade sem peso na consciência porque o dinheiro nunca era meu. Eu não podia ter um cachorro, andar sem sutiã em casa, nem comprar um par de sapatos sem ter que dar fim em outro.

Eu passei três anos sonhando com o momento que estou vivendo. Meu próprio apê (alugado), com meus próprios móveis que não tiveram que ser feitos a mão por falta de dinheiro, meu próprio cachorro, meu próprio bairro, minhas próprias contas. Até as contas são uma delícia quando chegam porque pra mim significam que sou eu que pago minhas próprias contas!!! Eu sei que essa alegria vai durar pouco tempo, ok? Mas pra mim, nesse momento, se preocupar com o dinheiro é se planejar pro futuro. E pela primeira vez em três anos eu posso planejar um futuro pra mim, se quiser, porque tenho a estabilidade econômica pra isso, mas não sou obrigada a fazê-lo porque o que eu vim pra fazer só acaba quando eu quiser, que é trabalhar. Meus planos não têm prazo de validade, como uma faculdade, um intercâmbio, um mestrado. Pela primeira vez em três anos eu sou dona da minha própria vida.

Então, sejam bem vindas, contas. Seja bem vindo aperto no final do mês. Espero que vocês durem pouco, mas enquanto estiverem por aqui, obrigada por me lembrarem que agora eu realmente posso fazer o que eu quiser da minha vida.

2012: Round 1, FIGHT!

Então o ano de 2012 começou com o pé direito: casa nova e linda (desculpa aí, continuo babando no meu apê), carro legal, junto do marido, cachorro adotado, trabalho voluntário logo na segunda semana. Eu andava meio calada porque vocês já sabem a história do gato escaldado, a pessoa aqui super ressabiada não queria que as conquistas se desfizessem em frente dos meus olhos enquanto eu celebrava. Então, finalmente, deixa eu contar um pouco do que tem sido esse último mês.

As despedidas foram menos tristes do que eu imaginava. Quando a gente luta de verdade por uma coisa, tudo tem gosto de conquista, então dizer até logo (e não adeus) não é tão difícil. E eu tenho consciência de que vim pra lutar por um sonho, e estou aqui honrando tudo que eu conquistei, principalmente minhas próprias certezas, que foi uma das coisas mais difíceis para mim.

Quando a gente planeja tudo e sabe exatamente porque dá cada passo, as coisas se tornam mais fáceis. Ou menos complicadas. Parece lógico, né? Mas não é. Mesmo quando a gente tem tudo planejado, é só a vida questionar um tijolinho que o castelo pode cair todo. Dessa vez, cada porrada que vem, sinto que a estrutura já não se abala – ainda que porradas sempre doem.

Chegar foi difícil, e cada dia acordar e saber que eu estou vivendo uma vida nova, sem um futuro certo. Mas então eu criei minha rotina dentro de minha vida aqui, e surpreendentemente, as coisas começaram a ter um resultado muito rápido. Mas eu tenho plena consciência de que na verdade os resultados pareceram rápidos porque tudo começou há muitos meses, e com muito esforço de todos os lados. Só que a verdade é que eu, mais uma vez escaldada, não esperava nem resultados.

Uma semana distribuindo currículos pela internet, semana passada recebi uma ligação e comecei meu trabalho voluntário no Programa de Equidad de Género del Poder Judicial de la Nación. É um lugar pequeno, com menos de 15 pessoas trabalhando, mas umas mulheres com uma energia incrível! A verdade é que o trabalho em si não é muito interessante, mas o ambiente de trabalho é tão divertido e eu rio tanto todos os dias que não  sinto nem o tempo passar! Só volto pra casa porque dá 17h  e o trabalho já fica deserto!

Ontem também recebi uma ligação que não quero festejar muito até assinar o contrato, mas parece que finalmente tenho um trabalho de verdade! É no Ministério do Trabalho, pra ser assessora do segundo escalão e fazer tudo que eu sempre quis: trabalhar com políticas públicas, gênero,inclusão social,  me meter com política, descobrir se é isso mesmo que eu amo. O salário é legal, mas não é o máximo, e é prestação de serviço, não é trabalho com carteira assinada, o que significa que não terei nenhum benefício. Mas é um trabalho remunerado, no que eu quero, que vai me dar experiência, me fazer conhecer muita gente nova e ainda por cima vai mudar meu status migratório, permitindo que eu procure trabalho como qualquer mexicana (esperemos que isso aconteça, pelo menos).

De resto, estou aqui, bem. Não digo que feliz, porque pra mim estar feliz inclui dois ingredientes que me faltam, 1) estar com as pessoas que amo, 2) estar realizada. Mas estou muito bem, aprendendo a amar uma cadelinha fofa (adoção é uma coisa incrível!!!), tocando minha vida, fazendo meu relacionamento funcionar e lutando todos os dias pelo trabalho dos meus sonhos. E continuo cabendo em minha própria pele, o que é mais importante.

Falta também encontrar aquele pedaço da minha vida que se perdeu no caminho, o acreditar. Mas esse é um problema cuja solução ainda não está muito clara pra mim, ao contrário de todos os outros…

Depressão, o tabu

Finalmente é hora de escrever esse post e, sem saber, eu esperei muito tempo por ele. Eu quero dividir isso não mais porque eu sinto a necessidade de desabafar, mas, sim, a necessidade de compartilhar uma experiência que pode ser útil para outras pessoas e para mim mesma, no futuro.

Durante muito tempo eu calei, e esse blog também, porque a depressão costuma ser assim mesmo. Primeiro é um falatório desgraçado de como as coisas estão ruins. Nesse estágio, as coisas ainda não estão tão ruins, mesmo que a gente diga que estão. A gente diz que não acredita mais em nada, mas se estamos falando isso é porque acreditamos, porque ainda nos importamos o suficiente para falar. É uma forma de pedido de socorro, é uma forma de forçar as pessoas a nos dizerem “não é verdade, vai ficar tudo bem”. Não, não vai ficar tudo bem, e eu acho cruel quando as pessoas dizem isso, achando que ajudam. Quem está deprimido quer até acreditar que vai ficar tudo bem, mas na verdade as coisas só ficam bem mesmo depois que a gente enfrenta. E dizer “vai ficar tudo bem” é fuga, consolo, não é confrontação.

Então pouco a pouco a gente vai descobrindo que realmente não vai ficar tudo bem, vai perdendo a esperança, alguns dias são insuportáveis. Mas aí tem uns poucos dias que valem a pena, e aí a gente acha que todos os problemas são pontuais, e começa a encontrar culpados para tudo. Depois, não só alguns dias, mas a maior parte deles. E começamos a acreditar que somos nós, na verdade, os culpados de todas as desgraças de nossas vidas. Mas ainda não é essa a pior parte. A gente só começa a chegar perto do fundo do poço quando quase todos os dias são insuportáveis, a gente só empurra com a barriga. Começa a pensar: só preciso superar mais um dia, mais umas horas e eu durmo de novo e vai haver um novo dia. Todo nosso esforço está concentrado em parecer normal, não demonstrar que estamos devastados por dentro, não machucar ainda mais as pessoas em volta. Sim, porque começamos a achar que não só somos os culpados por nossas desgraças como pela infelicidade das pessoas que nos cercam. E que o mundo seria um lugar melhor sem a gente.

Não dá pra explicar o que é o fundo do poço, só quem realmente esteve lá entenderia. Mas é um ciclo que não parece ter fim: você fica cara a cara com o problema, gasta toda sua energia em não desistir de tudo e sobreviver, fingindo para os outros que está bem. Aí não tem mais energia para enfrentar o problema quando é exposto a ele e tudo continua numa espiral negativa, que vai te puxando para baixo como um redemoinho. E quando você vê, não tem ideia de como chegou ali, quer sair, mas não sabe como. E isso reforça a sua descrença nas coisas…

Eu não falava da depressão porque eu achava que eu pioraria tudo se eu falasse. O problema é que as pessoas lidam mais fácil com doenças físicas do que com as psiquiátricas, e, sim, depressão é uma doença. Nossos neurotransmissores, que basicamente são o meio de comunicação entre os neurônios, não funcionam bem, e às vezes é necessário usar medicamentos – enquanto se busca uma solução definitiva para aquela desordem, normalmente através de psicoterapia. Quando alguém tem depressão, não precisa ter medo, evitar o assunto, achar que qualquer coisa que você disser a pessoa vai se matar. Nada é pior do que fingir que aquilo não existe, porque esse comportamento vai alimentar a culpa e a solidão que o deprimido sente. Nem é coisa “da cabeça dele”. Ninguém se deprime porque quer, como ninguém tem um câncer por que quer – ainda que a opção de tratar a doença seja de cada um. Depressão também não é tristeza. É uma doença e, como tal, deve ser tratada para recuperar a saúde da pessoa.

Se você é amigo ou parente de um deprimido, tenha a sensibilidade de abordar o tema, mas aberto para escutar e oferecer soluções. Se não souber o que dizer, pode ficar calado, mas não fique omisso. Escreva, ou entregue textos que podem ajudar a pessoa, encaminhe a pessoa para ajuda profissional, avise outras pessoas que podem ajudar. E, acima de tudo, mostre que você realmente ama, se importa com a pessoa e que está ali para ajudá-la.

Eu fiz quatro meses de terapia e, feliz, vou continuar fazendo, apesar de já poder me considerar “curada”. Foi o melhor investimento que eu fiz na minha saúde, desde que eu me lembro. Vou continuar na terapia porque as chances de ter novos episódios de depressão aumentam à medida em que mais episódios aconteceram na vida da pessoa, e vou me expor a novas situações de grande desafio. Então, até ter uma estabilidade na vida que dê suporte à minha estabilidade emocional eu quero continuar a terapia. Não acho que é o único caminho, mas para mim foi extremamente rápido e eficiente, eu pude acompanhar minha evolução semana a semana.

Não, não é fácil sair dessa. Mas é muito mais fácil sair do que ficar. A gente não tem ideia de quanto, até tentar. Mas não tentar por fazer. Sim, porque no fundo, a gente sabe o que dá e o que não dá certo fazer, então não existe tentar nessas horas. Por exemplo, a gente sabe que esconder os monstros dentro do armário ou jogar a poeira pra debaixo do tapete não é tentar. Eu não sei vocês, mas eu não consigo me enganar, por mais que eu tente. Meus demônios são tão fortes quanto eu, porque meus demônios são eu. A solução é enfrentá-los e descobrir que, na verdade, eles não são demônios. São apenas uma parte de você que não soube lidar com alguma situação de sofrimento.

Se dê a oportunidade de enfrentar essa situação. Você só tem a ganhar. Sabedoria, autoconhecimento, força, paz de espírito, caráter, estabilidade emocional, coragem, amor próprio, capacidade de perdoar e de se perdoar… Enfim, a gente muda muito quando supera essa barreira. Mas o compromisso com a cura precisa ser total. Pense em todas as coisas, todos os momentos de alegria e de entrega que você perdeu por causa da depressão. Ainda que você não acredite que você vai melhorar, e eu também não acreditava, se dê essa oportunidade de procurar ajuda (mas ajuda verdadeira, nada de coisas que você sabe que não estão funcionando). E pode pedir colo, mas jamais peça a alguém que diga que vai ficar tudo bem. Peça que a pessoa te dê a mão e te ajude a enfrentar as decisões mais difíceis de sua vida. Como enfrentar seus medos e, finalmente, aceitar a mudança que já existe.

Eu superei a depressão com muito apoio e amor de meu companheiro, que foi fundamental e também teve orientação psicológica, e de minha família, que entendeu todas as minhas necessidades. Aliás, para quem está ajudando uma pessoa deprimida a psicoterapia também é muito útil para compreender como ajudar de verdade. Também ajudou muito ter feito as pazes com a saúde como um todo, cuidar o meu corpo fazendo atividades físicas e mudando minha alimentação. E, claro, se todo o processo não tivesse sido orientado por uma profissional fantástica eu não teria chegado tão cedo onde cheguei. Escolhi a terapia comportamental, que trouxe resultados muito rápidos, e recomendo muitíssimo. Também me recomendaram muito a terapia cognitiva. Particularmente acho que a psicanálise não ajuda tanto em situações limítrofes como a depressão. Já fiz um ano de psicanálise e acho que é um ótimo meio para autoconhecimento, mas apenas quando a saúde mental está em perfeito estado, porque não tem um foco específico, e acho que pode até piorar uma depressão.

Enfim, a depressão não precisa nem deve ser um bicho papão. Quanto mais se evita, disfarça ou se alonga, pior ela fica, como todos os medos. Eu sei que também, como todos os medos, ela é temida por ser desconhecida. Mas é justamente por isso que temos que falar dela, para conhecer, evitar e curar. Quem tem psicólogo e psiquiatra é quem se preocupa com a saúde, então deve ser uma pessoa admirada, e não discriminada – apesar de que eu desconfio de quem passa a vida inteira tomando ansiolítico/antidepressivo, porque é paliativo, não é cura.

Agora eu posso dizer com gosto: eu tive depressão, sim, tive a coragem de enfrentá-la, e hoje me sinto construindo minha felicidade, acreditando no meu futuro e pronta para novos desafios.

Admirável novo mundo velho

Acho que nunca deixarei de ser feminista porque acredito que a luta contra o sexismo é diária. Mas faz tanto tempo que eu não participo de qualquer evento feminista que tinha até esquecido o 25 de novembro, até Duda lembrar (obrigada!). Então minha sexta feira continuou assim, normal, comemorando com uma felicidadezinha calada toda vez que eu via a mídia falar do tema – e falou muito! Mas o dia continuava bem normal até eu, meia noite, escutar em rede nacional, na Band News, uma citação de Kollontai. Fiquei paralisada pela força do momento.

Ali estava eu, tantos anos depois de GEGE e discussões e leituras e esperanças e desesperanças feministas, ouvindo em REDE NACIONAL uma citação de uma FEMINISTA BOLCHEVIQUE!!! Não sei se alguém consegue conceber o quanto isso é fantástico… Pra mim é algo como se a gente pudesse participar de uma convenção de RPG só de mulheres, tipo, o que a gente nunca imagina que vai acontecer na vida. Mas quando acontece, descobrimos que o impossível é mais próximo do que podemos imaginar.

Aí minha noite se transformou. E eu comecei a pensar o que mudou de 2005 pra cá. Temos a Lei Maria da Penha, um Ministério de verdade, uma novela das 8 (!!!) falando de violência doméstica abertamente, a criação da UN Women e até… uma Presidenta!!! Sim, eu já sabia e já esperava todas essas coisas. Mas a citação de Kollontai em rede nacional me fez finalmente entender que é tudo de verdade, a mudança é real, os esforços não são em vão.

Eu sempre soube que, uma vez dada a partida na Revolução Feminina, a simples mudança de gerações faria o trabalho de, um dia, alcançar a equidade, com a condição de que ninguém desse um passo atrás. A ideia é simples: nenhuma mulher vai aceitar retroceder nos seus direitos e tem grandes incentivos para buscar novos. Então cada geração iria mais longe, até o dia em que seríamos todos iguais. Mas, de repente, eu me dei conta de que aquele velho clichê é verdadeiro, pelo menos por hoje: “o futuro é agora”.

Talvez se eu não fosse diariamente bombardeada com doses cavalares de sexismo só de andar nas ruas eu tivesse me dado conta da beleza do momento muito antes. Não, eu não acho que estamos nem perto de chegar no objetivo. O abismo que existe entre ser homem e ser mulher nesse mundo ainda está a muitas décadas (sendo otimista) de se fechar. Mas dias como ontem me fazem sentir que eu vou deixar para o meu filho um mundo um pouco menos sexista do que aquele em que eu vivo hoje. E me dá muito orgulho saber que pude fazer parte ativamente dessa mudança.

Diretamente de 1917, dá muito gosto dizer: que mundo mais moderno, viu?

 

Canteiros

(Raimundo Fagner / Cecília Meireles)

Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Pode ser até manhã, cedo, claro, feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida

Bolo mexido demais desanda

E o silêncio continua. De qualquer forma, me sinto meio que numa obrigação moral de dar satisfação… acho que ao blog em si, como se fosse um indivíduo, não uma série de zeros de uns, como se fosse um reflexo de mim mesma. Até porque, se eu quisesse dar satisfação para quem lê o blog eu simplesmente o faria pessoalmente, como o tenho feito – ou deixado de fazer.

Essa semana, depois de escutar por tantos meses que eu não me afobe, comecei a me cansar de escutar que comece a me preocupar. Eu sinto muito, queridos. Eu não vou me afobar, não vou me preocupar, mas também não vou relaxar. Eu não vou fazer nada, nem vou fazer tudo, eu não vou fazer qualquer coisa. E atentem para o fato de que nada, tudo e qualquer coisa tem mais significados do que se lê à primeira vista. Justamente por prestar atenção para as entrelinhas de minha vida, eu preciso de tempo, silêncio e distância. Talvez até de solidão. Quero isolar as variáveis antes de dar o resultado para minha função. Não quero que me arrumem funções por tê-las, quero que se respeite meu tempo, seja mais acelerado ou mais lento do que o seu. Conselhos são bem vindos, mas pense na conveniência deles antes de distribui-los gratuitamente – pra quem vive em reflexão, as novidades definitivamente não são o senso comum, a cartilha, a linha traçada.

Eu não espero que você entenda ou que goste do fato de que eu caminhei esse caminho mais só do que jamais estive porque não pude contar nem comigo mesma. E que eu preciso chegar até o final desse trecho desse mesmo jeito, porque ainda não consegui acertar o meu passo e é difícil me acompanhar nesse ritmo desencontrado.  Quando a noite vire dia e eu não tenha mais que me guiar pelas estrelas ou pelos rastros no chão, vocês vão saber. Até lá, respeite o caminho de quem viaja sem mapa. Se precisar de ajuda, você sabe  que eu vou parar para pedir informação.

Que nem jiló

Composição: Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira

Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim,
Que vivo doido a sofrer

Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz roer
E amarga qui nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar
Saudade, o meu remédio é cantar

 

E como amarga, viu? Pegava 10 conexões fácil…

 

Sem querer querendo

Domingo, por uma dessas ironias do destino, estávamos no carro zapeando a rádio e encontramos do nada um programa só de música brasileira. Depois de muita música nordestina (diliça!), lá pelas tantas começou essa aí embaixo, e tudo começou a fazer sentido.

 

Quase Sem Querer

Legião Urbana

Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Renato Rocha

 

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranqüilo e tão contente.

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito;
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.