Finalmente é hora de escrever esse post e, sem saber, eu esperei muito tempo por ele. Eu quero dividir isso não mais porque eu sinto a necessidade de desabafar, mas, sim, a necessidade de compartilhar uma experiência que pode ser útil para outras pessoas e para mim mesma, no futuro.
Durante muito tempo eu calei, e esse blog também, porque a depressão costuma ser assim mesmo. Primeiro é um falatório desgraçado de como as coisas estão ruins. Nesse estágio, as coisas ainda não estão tão ruins, mesmo que a gente diga que estão. A gente diz que não acredita mais em nada, mas se estamos falando isso é porque acreditamos, porque ainda nos importamos o suficiente para falar. É uma forma de pedido de socorro, é uma forma de forçar as pessoas a nos dizerem “não é verdade, vai ficar tudo bem”. Não, não vai ficar tudo bem, e eu acho cruel quando as pessoas dizem isso, achando que ajudam. Quem está deprimido quer até acreditar que vai ficar tudo bem, mas na verdade as coisas só ficam bem mesmo depois que a gente enfrenta. E dizer “vai ficar tudo bem” é fuga, consolo, não é confrontação.
Então pouco a pouco a gente vai descobrindo que realmente não vai ficar tudo bem, vai perdendo a esperança, alguns dias são insuportáveis. Mas aí tem uns poucos dias que valem a pena, e aí a gente acha que todos os problemas são pontuais, e começa a encontrar culpados para tudo. Depois, não só alguns dias, mas a maior parte deles. E começamos a acreditar que somos nós, na verdade, os culpados de todas as desgraças de nossas vidas. Mas ainda não é essa a pior parte. A gente só começa a chegar perto do fundo do poço quando quase todos os dias são insuportáveis, a gente só empurra com a barriga. Começa a pensar: só preciso superar mais um dia, mais umas horas e eu durmo de novo e vai haver um novo dia. Todo nosso esforço está concentrado em parecer normal, não demonstrar que estamos devastados por dentro, não machucar ainda mais as pessoas em volta. Sim, porque começamos a achar que não só somos os culpados por nossas desgraças como pela infelicidade das pessoas que nos cercam. E que o mundo seria um lugar melhor sem a gente.
Não dá pra explicar o que é o fundo do poço, só quem realmente esteve lá entenderia. Mas é um ciclo que não parece ter fim: você fica cara a cara com o problema, gasta toda sua energia em não desistir de tudo e sobreviver, fingindo para os outros que está bem. Aí não tem mais energia para enfrentar o problema quando é exposto a ele e tudo continua numa espiral negativa, que vai te puxando para baixo como um redemoinho. E quando você vê, não tem ideia de como chegou ali, quer sair, mas não sabe como. E isso reforça a sua descrença nas coisas…
Eu não falava da depressão porque eu achava que eu pioraria tudo se eu falasse. O problema é que as pessoas lidam mais fácil com doenças físicas do que com as psiquiátricas, e, sim, depressão é uma doença. Nossos neurotransmissores, que basicamente são o meio de comunicação entre os neurônios, não funcionam bem, e às vezes é necessário usar medicamentos – enquanto se busca uma solução definitiva para aquela desordem, normalmente através de psicoterapia. Quando alguém tem depressão, não precisa ter medo, evitar o assunto, achar que qualquer coisa que você disser a pessoa vai se matar. Nada é pior do que fingir que aquilo não existe, porque esse comportamento vai alimentar a culpa e a solidão que o deprimido sente. Nem é coisa “da cabeça dele”. Ninguém se deprime porque quer, como ninguém tem um câncer por que quer – ainda que a opção de tratar a doença seja de cada um. Depressão também não é tristeza. É uma doença e, como tal, deve ser tratada para recuperar a saúde da pessoa.
Se você é amigo ou parente de um deprimido, tenha a sensibilidade de abordar o tema, mas aberto para escutar e oferecer soluções. Se não souber o que dizer, pode ficar calado, mas não fique omisso. Escreva, ou entregue textos que podem ajudar a pessoa, encaminhe a pessoa para ajuda profissional, avise outras pessoas que podem ajudar. E, acima de tudo, mostre que você realmente ama, se importa com a pessoa e que está ali para ajudá-la.
Eu fiz quatro meses de terapia e, feliz, vou continuar fazendo, apesar de já poder me considerar “curada”. Foi o melhor investimento que eu fiz na minha saúde, desde que eu me lembro. Vou continuar na terapia porque as chances de ter novos episódios de depressão aumentam à medida em que mais episódios aconteceram na vida da pessoa, e vou me expor a novas situações de grande desafio. Então, até ter uma estabilidade na vida que dê suporte à minha estabilidade emocional eu quero continuar a terapia. Não acho que é o único caminho, mas para mim foi extremamente rápido e eficiente, eu pude acompanhar minha evolução semana a semana.
Não, não é fácil sair dessa. Mas é muito mais fácil sair do que ficar. A gente não tem ideia de quanto, até tentar. Mas não tentar por fazer. Sim, porque no fundo, a gente sabe o que dá e o que não dá certo fazer, então não existe tentar nessas horas. Por exemplo, a gente sabe que esconder os monstros dentro do armário ou jogar a poeira pra debaixo do tapete não é tentar. Eu não sei vocês, mas eu não consigo me enganar, por mais que eu tente. Meus demônios são tão fortes quanto eu, porque meus demônios são eu. A solução é enfrentá-los e descobrir que, na verdade, eles não são demônios. São apenas uma parte de você que não soube lidar com alguma situação de sofrimento.
Se dê a oportunidade de enfrentar essa situação. Você só tem a ganhar. Sabedoria, autoconhecimento, força, paz de espírito, caráter, estabilidade emocional, coragem, amor próprio, capacidade de perdoar e de se perdoar… Enfim, a gente muda muito quando supera essa barreira. Mas o compromisso com a cura precisa ser total. Pense em todas as coisas, todos os momentos de alegria e de entrega que você perdeu por causa da depressão. Ainda que você não acredite que você vai melhorar, e eu também não acreditava, se dê essa oportunidade de procurar ajuda (mas ajuda verdadeira, nada de coisas que você sabe que não estão funcionando). E pode pedir colo, mas jamais peça a alguém que diga que vai ficar tudo bem. Peça que a pessoa te dê a mão e te ajude a enfrentar as decisões mais difíceis de sua vida. Como enfrentar seus medos e, finalmente, aceitar a mudança que já existe.
Eu superei a depressão com muito apoio e amor de meu companheiro, que foi fundamental e também teve orientação psicológica, e de minha família, que entendeu todas as minhas necessidades. Aliás, para quem está ajudando uma pessoa deprimida a psicoterapia também é muito útil para compreender como ajudar de verdade. Também ajudou muito ter feito as pazes com a saúde como um todo, cuidar o meu corpo fazendo atividades físicas e mudando minha alimentação. E, claro, se todo o processo não tivesse sido orientado por uma profissional fantástica eu não teria chegado tão cedo onde cheguei. Escolhi a terapia comportamental, que trouxe resultados muito rápidos, e recomendo muitíssimo. Também me recomendaram muito a terapia cognitiva. Particularmente acho que a psicanálise não ajuda tanto em situações limítrofes como a depressão. Já fiz um ano de psicanálise e acho que é um ótimo meio para autoconhecimento, mas apenas quando a saúde mental está em perfeito estado, porque não tem um foco específico, e acho que pode até piorar uma depressão.
Enfim, a depressão não precisa nem deve ser um bicho papão. Quanto mais se evita, disfarça ou se alonga, pior ela fica, como todos os medos. Eu sei que também, como todos os medos, ela é temida por ser desconhecida. Mas é justamente por isso que temos que falar dela, para conhecer, evitar e curar. Quem tem psicólogo e psiquiatra é quem se preocupa com a saúde, então deve ser uma pessoa admirada, e não discriminada – apesar de que eu desconfio de quem passa a vida inteira tomando ansiolítico/antidepressivo, porque é paliativo, não é cura.
Agora eu posso dizer com gosto: eu tive depressão, sim, tive a coragem de enfrentá-la, e hoje me sinto construindo minha felicidade, acreditando no meu futuro e pronta para novos desafios.